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Um artista com 41 anos de experiência

António Garrido Jóia é o único sapateiro da freguesia de Alcoentre

É o último sapateiro de Alcoentre. Não faz sapatos mas realiza todo o tipo de consertos. António Garrido Jóia, 54 anos, aprendeu a arte aos 13 anos, quando foi desafiado por um patrão da terra que queria um aprendiz. Tempos em que havia muito trabalho. Actualmente nem por isso. Quase nada mesmo.

Edição de 08.09.2004 | O poder local aqui tão perto
Jóia, como é tratado, é natural de Alcoentre. Muitos até se dirigem a si com a frase “ó Jóia não ligues bóia”, celebrizada pelo humorista Badaró. É no rés-do-chão de sua casa, numa pequena sala, que montou o negócio de sapateiro. Na travessa da Fonte 3, mesmo ao lado da sede da junta de freguesia. Ali tem os utensílios e apetrechos necessários. A fresa para fazer os acabamentos nos sapatos, escovas, graxas, álcool para limpar antes de puxar o lustro e aplicar a graxa, martelo, turquês, alicate, tenaz e a juntadeira, máquina que faz as costuras no calçado. Coloca solas e meias solas, além de capas. “Mas já quase não se usam hoje em dia. É tudo sintético”, comenta. Meias solas e saltos ficam por dez euros. Quatro euros é o preço de colocação de capas. Conserta o que for necessário. Desde o sapato de salto alto da senhora mais fina à bota rude do homem. Mesmo quando a solução mais óbvia possa parecer deitar tudo para o lixo Mas também vende alguns acessórios como palmilhas de plástico e de cortiça e atacadores. Todo o material é comprado a um viajante que passa periodicamente por Alcoentre. A presença de dois estabelecimentos prisionais na freguesia não é sinónima de mais clientes. “Os reclusos desenvolvem estas actividades e se alguém tem conhecimentos faz o trabalho de casa”, revela. As festas anuais em honra do nosso Senhor Jesus dos Aflitos, que se realizam no primeiro fim-de-semana de Setembro, não acrescentam muito ao negócio. “As pessoas compram sapatos novos para vir à festa e só quando o rompem é que vêm aqui pedir o conserto”, refere.Mas também já lhe aconteceu substituir o salto de sapato de uma noiva chorosa que à saída da igreja teve o azar de o partir, num domingo de casório. O padrinho esmerou-se e tinha o ofício de António Jóia mesmo ali a 20 metros. E tudo acabou bem. Em 41 anos de actividade, António Jóia apenas por uma vez teve um rapaz a aprender a arte consigo. Já lá vão três décadas. Como não havia dinheiro para pagar um ordenado, o aprendiz foi procurar outra coisa. E continua a não haver quem queira saber da arte. Os problemas de saúde podem levar a que termine a sua actividade a qualquer momento. Os diabetes turvam a sua visão e uma cirrose também veio complicar. Mas a população de Alcoentre sabe que sapateiro só há um: o Jóia e mais nenhum.

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