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Trabalhar nos cornos do touro

Trabalhar nos cornos do touro

João Aleluia é embolador há trinta anos

Embolar touros é a sua paixão. Há trinta anos que João Aleluia exerce esta arte taurina que lhe foi transmitida por pai e avô. Além das embolas, o artesão faz também farpas e bandarilhas. A sua maior tristeza é não ter seguidores da tradição familiar.

Edição de 08.09.2004 | Sociedade
A paixão herdou-a da sua família. Primeiro o avô, depois o pai e agora ele. Chama-se João Aleluia, tem 53 anos e é o único embolador de touros no sul do distrito de Santarém. Apesar de esta não ser a sua ocupação principal, há 30 anos que este artesão de Salvaterra de Magos tem carteira profissional passada pelo Sindicato Nacional de Toureiros. No nosso país só existem 20 pessoas com esse título profissional actualizado. No meio da aficcion é conhecido do Minho ao Algarve. E já entrou em quase todas as praças portuguesas onde embolou largas centenas de touros. Cada vez que é chamado para uma corrida, faz-se acompanhar de um amigo que o ajuda nesta difícil tarefa de colocar as protecções nos cornos dos touros. Para embolar seis touros, leva consigo 24 pares de embolas de diversos tamanhos. Se tudo correr como previsto, e não se registar nenhum incidente, João Aleluia consegue embolar um touro em 20 minutos. Antes de embolar, começa-se por cortar as pontas dos cornos, lixa-se as ponteiras e, de seguida, coloca-se a embola. O processo pode parecer simples, mas exige algum cuidado ou não se estivesse a lidar com “clientes” com mais de 500 quilos. “Um pequeno deslize e o touro pode-nos partir um braço”, explica. Foi o que aconteceu a alguns amigos que praticam a arte. Mas João Aleluia não se limita a embolar os touros. É também ele que faz as embolas. Num pequeno atelier que tem em sua casa, apetrechado com todos os utensílios e materiais indispensáveis para o seu trabalho, o artesão refugia-se à noite e aos fins-de-semana do mundo exterior e começa a laborar. Corta o cabedal, cose, coloca as argolas, as cordas e um pequeno copo metálico para assegurar uma maior protecção sempre que o touro faz as investidas. O processo parece simples, mas Aleluia chega a levar duas horas para fazer cada embola. O seu trabalho só acaba por ser recompensado quando é chamado a colocar as protecções nos touros. Normalmente, leva 400 euros para embolar seis touros. O preço só é mais reduzido quando trabalha na Praça de Touros de Salvaterra de Magos. Além de ser a sua terra natal, João Aleluia tem menos despesas de deslocação e alimentação.Como o mundo dos touros é muito mais do que a tarefa de embolar, João Aleluia dedica também parte do seu tempo a fazer farpas e bandarilhas. Faz ferros (80 cm e 130 cm) para o toureio a cavalo e ferros (60, 65 e 70 cm) para o toureio a pé. No final das corridas, cabe-lhe também a árdua tarefa de tirar os ferros e as embolas aos touros. O material fica, posteriormente, em sua posse para que possa ser recuperado no atelier.Contrariamente aos outros artesãos que se queixam do desaparecimento de alguns tipos de artesanato, para João Aleluia a arte de embolar os touros vai continuar. A tauromaquia é uma tradição muito enraizada em Portugal, “e vamos ter de continuar a embolar os touros”, adiantou. Mário GonçalvesSem seguidores na famíliaA maior tristeza de João Aleluia é não ter ninguém na família que possa prosseguir com esta tradição familiar. João Aleluia tem duas filhas, por isso resta-lhe a esperança de um dia poder ter um neto que goste deste ofício. Tudo o que sabe no domínio desta arte taurina aprendeu com o seu avô, José Travessa Aleluia, e com o seu pai, António Aleluia. Também eles dedicaram toda uma vida a esta arte. Enquanto aguarda que surja algum seguidor na sua família, entretém-se a explicar aos muitos jovens que o visitam como tudo é feito. Além disso, sempre que participa em exposições, faz também questão de explicar aos mais interessados todo o processo de embolar. O seu contacto com o público, leva-o ainda a manifestar a intenção de um dia poder vir a ensinar esta arte taurina.
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