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Frutos abençoados

Frutos abençoados

Abitureiras recuperou tradição que esteve interrompida um século

No domingo recuperou-se uma tradição antiga de Abitureiras. A bênção dos primeiros frutos do campo não se fazia desde o início do século passado.

Edição de 15.09.2004 | Cultura e Lazer
O padre, envergando calças e colete preto, camisa branca e chapéu de aba larga, segue à frente. Acompanham-no mulheres e homens com trajes do campo e do bairro transportando cestos com frutos para serem benzidos. No domingo à tarde, numa iniciativa do padre Ricardo Mónica, recuperou-se a velha tradição da bênção das primícias. Uma manifestação popular e religiosa que há muito se tinha perdido na freguesia de Abitureiras, concelho de Santarém. Eram quatro da tarde quando os elementos dos grupos de folclore de Abitureiras e das Velhas Guardas de Almeirim, fazendo de figurantes, começaram a desfilar. A distância era curta. Pouco mais de trinta metros, entre o largo onde decorreram recentemente os festejos locais e a entrada da igreja.Alípio Canaverde, do Rancho Folclórico de Abitureiras e um entusiasta da história e tradições locais, conta que era hábito fazer-se este tipo de iniciativas em vários locais da zona. No caso de Abitureiras os dados existentes são escassos, mas há notícias que dão conta da realização de uma grande romaria. Há quem diga que essa romaria se fazia em honra do Bom Jesus das Abitureiras, outros falam de uma bênção do gado ou dos frutos. “Não sabemos exactamente de que tipo de manifestação se tratava. Mas julgamos que se tratava da bênção das primícias”, comenta Alípio Canaverde. Nos cestos de vime que são levados para a igreja estão representados todos os frutos da localidade. Os pequenos peros “casa nova”, característicos da freguesia, melões, uvas, marmelos, figos, amêndoas e nozes. O cortejo anda a toque de palmas até à porta do templo, onde são deixados os cestos. Segundo alguns registos antigos, conta-se que os cestos ficavam à porta até o padre chamar as pessoas que tinham levado os frutos, convidando-as a levar os cestos ao altar para serem benzidos. E a tradição foi cumprida com o padre Ricardo Mónica a chamar os elementos dos ranchos durante o ofertório da missa. Os cestos eram entregues ao padre, que os colocava ao lado do altar. Durante a bênção Ricardo Mónica suplicava ao Senhor: “Concedei-nos sempre a riqueza das colheitas e a abundância dos frutos”. Antes já tinha lembrado que a última iniciativa do género naquela igreja tinha sido feita no início do século passado.A bênção das primícias, ou rito litúrgico da bênção dos primeiros frutos do campo, é na perspectiva da Igreja Católica a expressão visível do reconhecimento da soberania de Deus. A importância dada aos primeiros frutos das colheitas agrícolas atravessa todo o Antigo Testamento. E representa a aceitação de Deus na vida do Homem.Numa terra com poucas tradições religiosas, a reconstituição da bênção das primícias constituiu também uma forma de chamar as pessoas à igreja. Alípio Canaverde recorda que “antigamente só as mulheres iam à missa e apenas em alturas festivas. Durante a maior parte do ano as portas da igreja estavam fechadas”. No domingo mais de cem pessoas assistiram a esta manifestação religiosa. O pároco esperava uma maior adesão dos populares da freguesia, mas disse esperar que no próximo ano haja mais gente a assistir a esta eucaristia, onde os cânticos são acompanhados do som dos acordeões dos ranchos folclóricos.
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