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“O verdadeiro artista trabalha com as mãos”

“O verdadeiro artista trabalha com as mãos”

José Manuel Cabaço, forjador de Salvaterra de Magos

Desde os 10 anos que faz ferros para marcar animais. Recusa utilizar moldes para executar os seus trabalhos. José Manuel Cabaço defende que o verdadeiro artista trabalha com as mãos.

Edição de 15.09.2004 | Cultura e Lazer
Há mais de cinquenta anos que se dedica a fazer ferros para marcar cavalos e gado bovino. Tem encomendas de todo o país. Não há ganadeiro que desconheça os trabalhos em ferro forjado de José Manuel Cabaço, 66 anos. Natural de Salvaterra de Magos, o artesão trabalha o ferro na forja desde os 10 anos. Deixou a escola e foi trabalhar para junto do seu pai – o mestre Sílvio Cabaço - na mesma oficina onde ainda hoje continua a laborar. Por isso, há até quem defenda que o atelier de José Cabaço é a grande referência da antiga rua da Água, hoje rua António Ramalho Almeida. As novas tecnologias transformaram a arte de trabalhar o ferro. Os métodos de trabalho do antigo forjador estão a desaparecer. Hoje, deixou-se de trabalhar o ferro à mão. O que acontece, na maior parte das vezes, é usarem-se moldes. “Nestes casos, não há arte nenhuma”, adiantou. O ferro é aquecido na forja, e colocado em moldes. Sai tudo muito idêntico. Questionado sobre o facto de os seus trabalhos poderem não sair exactamente iguais, José Manuel Cabaço defende que “aqui é que está a arte”. Se os trabalhos forem iguais, vê-se logo que em vez de “terem sido feitos à mão foram feitos à máquina”. A mestria do trabalho manual reside no facto de se tentar fazer os trabalhos o mais parecido possível. Por isso, pode dizer-se que o “forjador é um artista”. Este trabalho de paciência e dedicação não cativa os mais novos. Ao longo dos anos, José Manuel Cabaço sempre manifestou disponibilidade para ensinar a arte. Mas poucos têm sido os que se dispõem a aprender. “Os jovens gostam de começar um trabalho e terminá-lo no mesmo dia”, adiantou.O artesão é chamado a fazer trabalhos para todo o país e para o estrangeiro. Ganadeiros holandeses e brasileiros conhecem as mãos de ouro do mestre Cabaço. Apesar de ser muito solicitado, conta que nunca fez publicidade. A palavra vai passando de boca em boca. “E esta é a melhor maneira de se divulgar o nosso trabalho”, defendeu. Fazer um ferro para marcar um cavalo pode custar mais de 500 euros. Chega a trabalhar durante uma semana para que tudo saia na perfeição.O artesão não se limita a fazer ferros para marcar animais. Faz candeeiros antigos, gradarias para portas e janelas, varandas de estilo antigo, ferros para marcar a carne que vai para o talho, ferros para marcar madeiras (carroças e tonéis) e até para as selas dos cavalos.No seu atelier de trabalho, aparecem também muitas vezes alguns ferros para recuperar. O facto deste metal ser submetido a elevadas temperaturas provoca muito desgaste. Cabe também a este especialista tentar recuperar os símbolos das ganadarias, alguns com mais de cem anos.Além do trabalho de oficina, José Cabaço tem dedicado a vida a ajudar os outros. Alguns amigos não hesitam em referir que o forjador “é um autêntico humanista”. De forma gratuita, sempre que sai do seu atelier e é solicitado para o efeito, é vê-lo a ajudar gratuitamente as pessoas nalgumas instituições da sua terra. Para que as marcações sejam bem executadas, o pêlo do animal onde é cravado o ferro tem de ser um pouco rapado. Caso contrário, só passado algum tempo é que se começa a distinguir com alguma perfeição o símbolo das ganadarias e das casas agrícolas. Não é só a profissão de forjador que está em extinção. Até a tradição de se marcar o gado bravo se perdeu com o passar do tempo. Há muitos anos, sempre que se resolvia executar as marcações, convidava-se familiares e amigos. Os animais eram laçados e marcados com a ajuda de todos. Normalmente, fazia-se “uma festa com música, comida e bebida” Hoje, as coisas são bem diferentes. Quase ninguém faz isso. Mário Gonçalves
“O verdadeiro artista trabalha com as mãos”

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