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A fabricante de rodilhas

Maria José, guardiã de uma arte caída em desuso
Edição de 15.09.2004 | O poder local aqui tão perto
Há algumas décadas, o orgulho das noivas de Valhascos era levar uma boa grade (ou arameira) de esmaltes e lindas rodilhas. “Quando me casei levei 12 rodilhas”, recorda Maria José – “até no nome sou pobre” – uma anciã de 85 anos que continua a fazer as pequenas rodas, macias e fofas, que ajudavam as mulheres a transportar grandes pesos à cabeça.Actualmente, são peças de artesanato, feitas em lã porque já não há alfaiates nem costureiras onde ir buscar os ourelos dos tecidos. Maria José voltou a esta tarefa quando as forças começaram a escassear para continuar a amanhar e cultivar as terras de horta. “Já tenho muitos anos, não posso”. Ganhou mestria na arte de juntar trapos velhos, envolvê-los em pedaços de meias por ser um tecido mais fino, moldá-los e depois revestir aquela roda, que os mais novos poderão chamar de donuts coloridos, com fios de lã.“Pego num fino de cor e noutro branco e vou enrolando. Depois passo um branco, tiro dois verdes, passos dois brancos...”, e explica minuciosamente o trabalho. Por junto uma rodilha pequena demora uma hora a fazer, nem mais. “Então não chega?” questiona quase indignada. Em Valhascos dizia-se que rapariga que “não soubesse fazer rodilhas não era capaz de casar”.Maria José soube fazer as duas coisas. Mas de histórias da aldeia, a irmã Arminda Rosa, de 83 anos, tem memória mais fresca. Lembra-se das tecedeiras, dos alfaiates e costureiras, das bordadeiras e dos esparteiros. “Havia de tudo em Valhascos”. Semeava-se linho com que se faziam os bragais para encher as arcas das noivas. Olarias, serralharias, louçarias e ferradores, enchiam a terra.E as outras histórias, Arminda Rosa também sabe. O nome de Valhascos teria derivado de velhos, dos velhos pescadores do norte que desciam o rio à procura de melhor pescaria. As mulheres ficavam em terra à espera e rezavam a Nossa Senhora da Conceição pelos seus homens. A Rua da Santa, a rua mais velha da aldeia e onde estão as casas mais antigas da povoação, conserva a lápide à Virgem em memória desses tempos.

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