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Com a cidade aos pés

Reportagem de O MIRANTE fez baptismo de voo num ultraleve por cima de Tomar
Edição de 15.09.2004 | Sociedade
“O ultraleve é seguríssimo, mesmo que o motor falhe a capacidade de planagem é muito grande”, diz o piloto com ar confiante e sabedor. Mas a explicação não convence quem olha estarrecida para “aquela coisa” que parece um triciclo com asas. Por baixo das calças as pernas tremem e tem-se quase a certeza que o mais certo é que o primeiro voo da repórter de O MIRANTE num ultraleve seja baptizado com náuseas e vómitos.Na altura de pôr o capacete, o cabelo não quer entrar, talvez porque as mãos estejam demasiado suadas. “Está muito vento, se calhar não é boa ideia fazer isto”. Tenta-se escapar ao voo, sem êxito.Depois de se estar sentada, o piloto dá as instruções – “ponha os pés ali e não os mexa durante a viagem, é a única coisa que tem de fazer. Depois é apreciar a paisagem”. É isso mesmo que se quer mas uma vozinha que vem de dentro teima em não dar descanso – “vais-te esparramar no chão, sai enquanto é tempo, não importa que te chamem cobarde”.Tarde demais. O triciclo voador “super seguro” já se faz à pista. O piloto vai mexendo os pés para trás e para a frente e puxa para si o manípulo central que mais parece um joy stick. O melhor é fechar os olhos com força, diz a voz irritante. Sente-se o chão a fugir dos pés e quando se decide abrir as pestanas, arregala-se os olhos. De repente perde-se completamente o medo. E percebe-se o entusiasmo dos aviadores. O barulho do pequeno motor e o oscilar insistente das asas de pano devido ao vento são completamente secundarizados pela vista majestosa – a cidade de Tomar, os pequenos casarios, o ziguezaguear do rio. Tudo é muito mais bonito visto lá de cima.Passa-se pela polémica rotunda cibernética da cidade e mentalmente dá-se alguma dose de razão ao presidente da câmara. A água a jorrar em repuxos por entre a desenhada Rosa dos Sete Ventos é qualquer coisa do outro mundo. Pena é só poder ser assim vista do céu...O piloto vira a cabeça na nossa direcção e a reacção espontânea é levantar de imediato o polegar, como que a dizer “isto é mesmo fixe”. E não se tem tempo para mais nada porque de repente parece que se vai cair no abismo. O estômago vem até à boca e, qual pássaro, o corpo parece ter vida própria e quer mandar-se para o infinito quando o ultraleve se deixa cair literalmente uns bons 20 metros.O susto inicial não escondeu o prazer do “fosso” e a adrenalina de se pensar que se está em queda vertical e sem rede. O piloto olha de lado para ver a reacção e o polegar é novamente levantado. Desta vez Carlos Carreira avisa por gestos que vai voltar a fazer a manobra e quando toda aquela sensação volta, apetece gritar. E grita-se mesmo, em plenos pulmões. O prazer é tanto que o tempo pára. E quando o avião se faz novamente à pista para a aterragem já se sente saudades de andar lá em cima. O ultraleve toca no chão de uma forma suave e percorre algumas centenas de metros até se imobilizar por completo. O baptismo estava feito, sem vómitos e com muita vontade de voltar a ser novamente como os pássaros, mesmo por breves instantes. Fica para breve. Margarida Cabeleira

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