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Baptista Pereira, o Gineto de “Esteiros”

A entrevista de Baptista Bastos
Edição de 21.09.2004 | Desporto
O jornalista Baptista Bastos entrevistou Baptista Pereira e a conversa entre os dois está editada numa colectânea de “reportagens” com o título: “As palavras dos outros” saída em 1969. Começa assim: “Ele suportou a fome, a afronta e a humilhação. Mas essas velhas pragas não o castigaram pela vida adiante. Tristeza é uma coisa sem graça. E a esperança nunca erra: tem sempre razão. Filho de pescador, ladrão de fruta, analfabeto, foi o herói livre de um dos mais belos romances da literatura portuguesa contemporânea: «Esteiros», de Soeiro Pereira Gomes. Nessa altura chamavam-lhe o Gineto. Em 1954, o ex-rapaz da borda-d’água emociona todo o País e impõe o nome modesto aos telexes das agências telegráficas do Mundo: «Numa luta feroz, Baptista Pereira, de Portugal, venceu a travessia do canal da Mancha.»Mais à frente Baptista Pereira, um dos homens da beira rio que, para o autor de Esteiros, “nunca foram meninos”, relata um episódio passado numa das provas em que participou, que ilustra a sua dedicação à família.“Os meus filhos já nasceram meninos. Se algum dia fui campeão de alguma coisa foi daquilo que consegui para eles. Em Gibraltar, uma vez, estava quase a desistir. As águas do estreito eram frias, frias, e eu estava sozinho no meio daquelas águas todas. Ouvia o barulho dos golfinhos, vias-os na noite, aos saltos, através dos óculos, mas as águas estavam muito frias e eu pensei: «Não aguento isto; vou abandonar.» Mas não abandonei, sabe porquê? A páginas tantas, enchi-me de raiva e disse cá comigo: «Vá Gineto, tá tudo à espera. Esta braçada vai pela Cilinha, esta braçada vai pelo Tito, esta braçada vai pela Natércia.» Acelerei o ritmo, desapareceu o frio do corpo. E bati o «record» do Mundo da travessia do estreito de Gibraltar”.Ao longo da conversa com o jornalista, o herói de Alhandra conta que a zona do Tejo frente ao mouchão de Alhandra foi a sua «Cartilha Maternal», que nunca odiou ninguém e que a primeira coisa que fez quando aprendeu a ler foi ler todos os livros do Soeiro Pereira Gomes. “Era a melhor homenagem que lhe podia fazer: o velho Gineto a ler os livros de um amigo”.

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