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O drama do furo

Edição de 21.09.2004 | Opinião
Há crimes sem vítima. Pensemos na condução sem carta, na falsificação de um passaporte, na condução em estado de embriaguez ou no incêndio provocado num terreno próprio, sem danos para terceiros. A punição só se justifica pelo perigo que é causado. Mas, na realidade, o arguido não faz mal a ninguém, a não ser à sociedade. Na grande maioria dos casos, há realmente vítimas: os que morreram, foram alvo de abusos sexuais, objecto de agressões ou despojados de bens. De um modo geral, as vítimas intervêm no julgamento como testemunhas. Naturalmente, oiço-os com a máxima atenção.Por isso, na minha profissão, aprende-se algo de relevo. As pequenas contrariedades da vida são pouco importantes quando comparadas com certos dramas que tantas pessoas vivem.Certa vez, às 9h15m da manhã, procedi à leitura de uma sentença em Almeirim. Depois, meti-me no automóvel para iniciar um complicado julgamento no tribunal de Coruche.Quando me encontrava quase a chegar ao meu destino, rebentou-se um pneu. Logo por azar, foi numa pequenina ponte, muito estreita, onde só passa um veículo em cada sentido. Ainda por cima era a roda frontal do lado esquerdo. Mantinha-me atento aos camiões que iam passando.Comecei mal. As porcas estavam quentíssimas. Ao tocar numa delas, queimei-me na mão. Vi mesmo uma bolha a crescer à minha frente.Lá coloquei o pneu sobressalente e percorri os poucos quilómetros que faltavam. Em vão. Tive de adiar o julgamento. Foi uma viagem atribulada. Ainda por cima, não fiz nada de útil em Coruche. Cheguei lá atrasado e com as mãos sujíssimas. Tratei de as lavar e colocar um penso rápido.Todo aquele aborrecimento era algo sem importância nenhuma. Isto se compararmos com a razão pela qual adiei o julgamento.A advogada pediu para falar comigo. Encontrava-se visivelmente combalida. Na noite anterior, o seu irmão tinha falecido. Imediatamente, marquei outra data. Nem sequer me preocupei em verificar ao abrigo de que alínea do Código de Processo Penal o fazia.Costa Freire foi detido por suspeita de actividades ilícitas enquanto Secretário de Estado. Esteve na cadeia durante alguns meses, mas não chegou sequer a ser julgado.Logo que foi colocado em liberdade, sucedeu-lhe precisamente isso: furou-se-lhe o pneu da viatura. Poder-se-ia dizer que era o cúmulo do azar. Mas eu imagino que aquilo não lhe tenha causado nenhuma comichão, para utilizar a expressão de um amigo meu. Que mal tem uma coisa daquelas quando confrontada com a permanência numa cela?Certa vez, eu ia jantar a casa de meus pais, que moravam a vinte quilómetros de minha casa. Tive um furo. Era já de noite. Mas a viatura ficou imobilizada mesmo por debaixo de um candeeiro de iluminação pública. Azar: a lâmpada estava fundida. Lá tive de mudar a roda às apalpadelas.Outro episódio curioso sucedeu com o meu Hyundai Coupé. Adorava aquele automóvel. Mas também tive o meu furo. O diabo foi descobrir onde estava colocada a manivela do macaco. Eu bem consultei o manual de instruções. Precisamente na parte em que se esclarecia a questão, havia uma gralha tipográfica que tornava o texto incompreensível. Fiz subir e descer o macaco com recurso à chave de porcas. Ainda me deu um trabalhão…A parte gaga deu-se quando terminei a tarefa. Fui arrumar todo o material, na parte inferior do porta-bagagens. Levantei o tapete e segurei-o com uma mão. Ia introduzindo as peças. A dada altura, solta-se o tapete. Levei com a manivela em cima da cabeça. Depois da roda mudada, vim a descobrir daquele modo bem duro onde estava a manivela: encaixada na parte inferior do tapete.* Juiz(hjfraguas@hotmail.com)

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