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O último oleiro de Árgea

António Cardoso gostava de ensinar a sua arte aos jovens mas ninguém quer aprender
Edição de 29.09.2004 | O poder local aqui tão perto
António Francisco Cardoso é o último dos oleiros de Árgea, a segunda maior aldeia da freguesia da Olaia. Aprendeu a arte aos 14 anos e nunca mais parou. Numa terra onde chegaram a conviver 18 oleiros, “Antoninho”, como lhe chama a mulher, foi o único a resistir à crise e a manter a sua arte.É num barracão contíguo à casa que construiu quando casou, há 54 anos, que as mãos de António Francisco Cardoso vão moldando o barro e ganhando forma. Modernidade foi coisa que nunca ali entrou.As telhas estão à vista, a lâmpada está presa a um emaranhado de fios eléctricos que percorre todo o recinto. “Levo a luz para onde é preciso, uma lâmpada chega”, diz o velho oleiro, quase a fazer 78 anos.As terrinas, os alguidares, tachos, pratos e um sem número de peças encavalitam-se em cima das velhas tábuas de madeira que, de tão baixas, obrigam os visitantes a andar dobrados, não lhes vá acontecer o mesmo que ao senhor António. “O meu querido abriu a cabeça e teve de levar 16 pontos, foi uma desgraça”, diz Leonor, que não se cansa de mimar o marido. Estão casados há 54 anos mas já levam mais de 60 de um namoro todos os dias renovado.A culpa do “tecto” baixo é da inspecção da actividades económicas, vaticina Leonor Cardoso. Foram os inspectores que obrigaram o casal a cimentar o chão de terra batida, elevando-o em relação às tábuas que funcionam como expositores.“Acho que nunca ninguém foi tão vistoriado como nós”, diz a mulher do oleiro, adiantando que um dia até foi de propósito a Lisboa, “a um prédio na avenida de Berna”, perguntar porque é que de seis em seis meses tinha de pagar 30 euros por uma vistoria. António Cardoso tinha apenas 14 anos quando aprendeu a arte, a mando de um tio da mulher. Trabalhou na sua oficina durante 19 anos, até decidir avançar por sua conta e risco. Durante anos a olaria foi um negócio rentável, hoje mal dá para comer.“A nossa safa são as encomendas que vão aparecendo”, refere o oleiro, lembrando a última em que ganhou algum dinheiro. “Fiz um enxoval completo para uma noiva do Entroncamento”, diz, enquanto mostra uma terrina que sobrou do serviço – “é bonito ou não é?”.Pena é que a sua arte não tenha seguidores. “Já dei um diploma a uma professora primária do Sardoal, a dona Luísa, mas de resto não há quem queira aprender”, queixa-se o oleiro. Segunda-feira é dia de cozer as peças de barro para no outro dia vender no mercado semanal de Torres Novas. Às seis da manhã já estão vestidos e prontos, à espera do táxi que os levará à cidade. O regresso é feito de autocarro. “É mais barato e como voltamos mais leves...”.Enquanto bate o barro na velha banca de madeira, António Cardoso vai explicando todo o processo, desde a apanha da terra à feitura de cada peça. Antigamente era a mula que puxava o engenho de amassar o barro. “Mas a mula morreu e tive de pedir a um primo que me engendrasse para aqui uma roldana para o barro poder ser amassado”.Antoninho põe o avental de plástico transparente, senta-se no banco e começa a dar ao pedal da roda. E o pedaço de barro vai tomando forma por entre as mãos calejadas do último oleiro de Árgea.

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