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“Foram momentos inesquecíveis”

Bruno Valentim conquistou duas medalhas de prata nos Jogos Paraolímpicos de Atenas
Edição de 01.12.2004 | Desporto
Bruno Valentim nasceu em Moçambique mas veio viver para Santarém quando ainda era uma criança de tenra idade. Ficou por cá toda a adolescência e juventude, até que migrou para o norte do país, mais propriamente para o Porto. Cidade onde reparte a sua vida entre a docência no ensino secundário, a investigação na Universidade do Porto e a prática desportiva, na modalidade de boccia, onde em representação de Portugal, conquistou duas medalhas de prata nos Jogos Paraolímpicos de Atenas 2004.Com 38 anos, Bruno Valentim é deficiente motor, mas tem uma força de vontade impressionante que o leva a bater recordes todos os dias, quer na sua vida profissional, como na vida de atleta. “Vivi sempre intensamente a minha vida de atleta e como em tudo na vida, este ano fui recompensado com a ida aos Jogos Paraolímpicos de Atenas e com a conquista de duas medalhas de prata. Foram momentos inesquecíveis que vivi em Atenas”, refere com um brilho de felicidade nos olhos.Há oito anos que Bruno Valentim é praticante de boccia, uma modalidade ligeiramente parecida com o jogo da malha, mas jogada com bolas. O objectivo é colocar bolas de cor (seis para cada lado) o mais perto possível de uma bola alvo que é lançada estrategicamente por um primeiro jogador para dentro de um campo de 10 metros por 6 metros.Embora a modalidade se adapte às suas possibilidades, não é de fácil desenvolvimento. É necessário treinar muito, duas ou três horas por dia, e para chegar aos Jogos Olímpicos, foi necessário abdicar de muitas coisas e fazer muitos sacrifícios. “Isto não é chegar, atirar umas bolinhas e já está. Foram muitas horas de treino, foram as férias hipotecadas e foram muitas ajudas da família e dos amigos”, diz agradecido o atleta.Mas nos últimos anos os atletas deficientes viram o seu valor reconhecido pelas entidades oficiais e passaram a contar com o estatuto de alta competição. “Fomos nós, atletas, treinadores e dirigentes, que com as nossas conquistas, «obrigámos» essas entidades a olharem para nós com olhos de ver”, garantiu.Para Bruno Valentim, o estatuto de alta competição é tão importante para o desenvolvimento dos atletas chamados normais como para os deficientes. “Nós temos tantas ou mais despesas do que os atletas chamados normais, e por isso temos que ter algumas regalias, porque para já o desporto para-olímpico começa a sofrer dos mesmos problemas do normal. Não sei o que é que nos vai acontecer nos próximos jogos em Pequim. Penso que não vai ser para melhor, descurou-se muito a preparação nos últimos seis anos e o desfavorecimento de que fomos alvo, vai de certeza ter repercussões nos jogos de Pequim”. Mas, embora reconheça que a manutenção das bolsas seja importante para a continuação do trabalho dos atletas, Bruno Valentim reconhece que é necessária a formação de um Comité Paraolímpico para gerir e organizar a modalidade. “É uma situação que se arrasta há longo tempo, que é preciso resolver, porque a federação já não consegue dar resposta a todas as exigências dos atletas”.O apoio da família é de capital importância para o desenvolvimento do atleta. “Vivo no Porto e para praticar a modalidade o apoio da minha família é muito importante. Portugal não é um país de voluntariado e por isso temos que ter o apoio dos familiares e dos amigos. Felizmente conto com o apoio incondicional do Boavista Futebol Clube, o meu clube de sempre, e posso dizer com satisfação que nunca senti falta de nada”, garantiu Bruno Valentim.A finalizar a conversa com O MIRANTE, Bruno Valentim fez questão de referir que a distinção que veio receber a Santarém, cidade onde viveu a maior parte da sua vida, e onde antes da doença neurológica o tornar deficiente praticou várias modalidades, foi importante para si. “Porque foi um sinal de que não fui esquecido e os meus pais tiveram também o prémio de me verem receber um troféu de mérito, que os enche de satisfação”, concluiu.

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