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Duas décadas a ver passar os comboios

Maria Helena Violante, 49 anos, guarda de passagem de nível

Os sinais luminosos e sonoros fixados na parede do abrigo são accionados. Há mais um comboio que se aproxima. Maria Helena desce manualmente as cancelas, pega na bandeira e encaminha-se para junto da linha para indicar ao maquinista se o caminho está ou não livre. Há mais de 20 anos que a guarda de passagem de nível faz este trabalho.

Edição de 01.12.2004 | Identidade Profissional
O barulho metálico dos comboios já não a apoquenta. Maria Helena Violante habituou-se ao ruído, por vezes quase ensurdecedor, dos vagões e carruagens. É mais difícil suportar o frio que o trânsito das carruagens aumenta. “Temos de ficar lá fora até o comboio passar e, quando faz frio, aquele vento gelado é muito desagradável”, diz esta mulher de 49 anos que quis ser professora “e podia sê-lo”, mas que por circunstâncias familiares acabou por aceitar o trabalho de guarda de passagem de nível.Maria Helena Violante, natural de Fungalvaz (Torres Novas), cresceu em França e mais tarde estudou Francês num instituto de línguas. “Podia dar aulas de Francês”. Mas a actividade de docente obrigava-a a deslocar-se para mais longe de casa e com um filho pequeno optou por se candidatar ao emprego que ainda hoje tem. “Entrei para a CP em 1976, tinha 21 anos, um filho pequeno e o meu marido estava doente. Tive de me agarrar ao que apareceu”.Na altura, Maria Helena trabalhava a dois passos de casa, no apeadeiro de Fagulhos, logo depois de Fungalvaz. Actualmente vem dar passagem aos comboios numa passagem de nível da Ribeira de Santarém. “O apeadeiro de Fagulhos fechou e, como não quis rescindir o contrato, o dinheiro faz falta, vim para aqui”.O trabalho que executa não a realiza, mas não é capaz de dizer categoricamente que não gosta. “Entramos como guarda de passagem de nível e ficamos assim o resto da vida, não há evolução, não nos obriga a estudar”, diz. Estudar só mesmo quando entrou e teve de aprender os horários, os números dos comboios, as tarefas que tinha que executar se fosse preciso mandar parar um comboio.“Mandei parar quatro comboios durante todos estes anos. Mas isto agora é muito bom, dantes era duro. Não tínhamos nenhum abrigo. Havia uma casita de madeira onde nem sequer podíamos acender uma fogueira com medo que ardesse. Os turnos eram de 12 horas, agora são de oito. Não havia luz e as comunicações entre estações e apeadeiros quase não existiam. Agora é uma maravilha. Ainda por cima quando estamos perto das estações a responsabilidade passa para o chefe da estação”, conta Maria Helena. À medida que fala vai recordando as coisas que tinham que fazer se houvesse alguma avaria. “Como não havia sinais luminosos, tínhamos de colocar petardos na linha, numa distância de 200 metros antes da passagem, que rebentavam quando o comboio passava para o maquinista se aperceber de que havia problemas”.Actualmente, o trabalho está muito reduzido. Para os maquinistas, Maria Helena só tem de levantar a bandeira vermelha. “Se não houver problema a bandeira fica enrolada, se for preciso mandar parar esticamos a bandeira. Mas se isso acontecer os maquinistas são avisados por telefone e pelos sinais luminosos ao longo da linha”, explica. De qualquer forma continua a ser um trabalho de grande responsabilidade, actualmente mais virado para a segurança na travessia das linhas pelos automobilistas, ou peões. “As cancelas fecham as duas ao mesmo tempo e temos de estar atentas para não danificar nenhum carro. Depois há aqueles que abusam e querem sempre passar quando as cancelas já estão a fechar”, continua Maria Helena que, apesar de nunca ter tido nenhum problema grave, já tem passado alguns dissabores.“De vez em quando chamam-me nomes. Aquelas coisas… Mas não podemos facilitar. Ainda outro dia queriam passar com uma carroça e um burro já com as cancelas quase fechadas e o caso esteve mal parado. Se os tivesse deixado passar e o burro se espantasse queria ver como era”.Os camiões são outra dor de cabeça. A saída da passagem de nível é estreita e nem sempre é fácil manobrar um veículo longo. “Até tremo quando os vejo chegar, se a sirene começa a tocar com eles no meio da linha é uma aflição”, diz.Margarida Trincão

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