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“Eu sou um contador de histórias”

Mário Tropa na Casa do Brasil em Santarém até 2 de Janeiro

Mário Tropa é um pintor de referência. Um artista com obra feita. Na Casa do Brasil, em Santarém, o artista volta a mostrar os seus trabalhos. O MIRANTE fez uma visita guiada à exposição e conversou com o pintor.

Edição de 08.12.2004 | Cultura e Lazer
“Eu sou um contador de histórias, embora sejam histórias contadas de uma forma diferente, sem a linha condutora habitual. Pinto na tela e no papel, a tinta da china ou a acrílico, porque não sei escrever como os grandes mestres da literatura. Talvez um dos meus grandes traumas seja não saber escrever porque também gostava de passar para o papel algumas vivências, mas a culpa é desta fixação tão grande por este tipo de escrita que é o desenho e a pintura”.No último sábado, à tarde, Mário Tropa conversou com o jornalista de O MIRANTE numa visita guiada à sua exposição na Casa do Brasil, em Santarém, inaugurada no passado dia 12 de Novembro e aberta ao público até 2 de Janeiro.O pintor, residente em Santarém há cerca de 40 anos, reformou-se da actividade de professor de Belas Artes e dedica-se agora a tempo inteiro à arte da pintura e do desenho. Pelo caminho fez dezenas de exposições e pintou centenas de quadros. Autor de uma obra que não encontra paralelo em nenhum outro artista da sua geração, Mário Tropa quer recuperar algum tempo pedido e, pela primeira vez na sua vida, alugou recentemente uma casa para montar o seu próprio atelier onde não lhe falta luz e espaço para produzir a sua obra.Nunca tive condições para trabalhar, um atelier a sério, personalizado, onde pudesse guardar o meu próprio lixo. Quem tem um atelier grande e amplo produz em grande e com amplitude. Quem trabalha num espaço pequeno produz as suas obras em A4. Há a ideia romântica de que um atelier serve ao artista para organizar farras, mais do que para trabalhar, mas isso não é verdade. O espaço bem organizado para o desenvolvimento da nossa actividade permite um trabalho mais grandioso.Hoje estou a começar a ter a atitude de um profissional das artes. Até aqui era um profis-sional do ensino. Vim para Santarém há 37 anos e adormeci a minha carreira. Estou a tentar acordar desse sono quase profundo.É verdade que nunca fui uma estrela da companhia mas, se tivesse conseguido, mais cedo, condições para trabalhar mais e melhor podia já ter chegado mais longe. Como nunca fui um fura-vidas precisava de alguém que fosse meu patrono. Alguém que ajudasse a construir a minha imagem. Para falar verdade eu nunca contactei uma galeria. Nunca vivi da pintura e sei que não é assim que se faz um percurso nesta vida.O Desenho que retrata a Igreja de S. João de Alporão, que Mário Tropa mostra pela primeira vez, embora já o tenha pintado há muitos anos, simboliza a sua relação com a cidade onde viveu a maior parte da sua vida e onde nunca recebeu o estimulo que precisava para se ter dedicado mais cedo a tempo inteiro à pintura. O desenho mostra a igreja em construção (o pintor diria em desconstrução) e não é por acaso que é o último trabalho da exposição, pendurado precisamente junto à porta de saída da última sala do primeiro andar da Casa do Brasil.Labirinto é o titulo que Mário Tropa deu à sua exposição, que reúne na sua maior parte obras produzidas nos últimos três anos. Consciente das dificuldades porque passa a maior parte dos visitantes, para se familiarizarem com a sua pintura, Mário Tropa tenta explicar um pouco do enredo das suas histórias.Eu sou um apaixonado pelo desenho. Acabei de ver a exposição da Paula Rego e fiquei fascinado. Ali é o desenho que nos dá a dimensão real das coisas. No meu caso, que não posso usar modelos de verdade, e tenho que recorrer à memória, tudo começa com um ou vários desenhos. Depois inicio um processo de ocultação. Há uma estrutura no quadro que se mantém desde o inicio mas que vai sendo ocultada até à exaustão. Na maior parte das minhas pinturas ou dos meus desenhos o meu esforço vai no sentido de passar para lá do momento da compreensão, daquilo que é mais significativo para a compreensão. O que eu quero é que fiquem apenas pequenos indícios dessa dimensão real das coisas. O suficiente para o entendimento do objecto.Sinto-me muito operário a fazer os meus trabalhos. Operário no sentido oficinal. Mas reconheço que este trabalho é muito mais intelectual que físico. O que eu procuro é a coerência, não é a analogia com o real. Isso é o que menos me interessa na minha pintura.Quem conhece a minha pintura reconhece-me nos quadros de hoje e nos que produzi há trinta anos. Há uma aprendizagem que não renego. Pelo contrário, orgulho-me dela e cultivo-a porque é esse o caminho. Não é possível confundir a minha pintura com a de outro artista. Nunca estive ligado a nenhum grupo. Quem verdadeiramente me influenciou foi o mestre Gil Teixeira Lopes, que também foi meu professor. Mas não posso ser confundido com ele. Nem com outro qualquer.Sobre a necessidade de desconstrução na sua pintura, Mário Tropa diz que não lhe interessa a realidade. Parto da realidade, é verdade. Não invento nada, sou incapaz de inventar. O que eu faço é associação diferentes. Vou à realidade buscar elementos para construir uma nova realidade.Pelo titulo desta exposição (Labirinto) podem explicar-se os meus métodos. No meio de uma certa provocação que eu procuro que seja sempre a minha pintura nada é o que parece. Depois de fazer os desenhos figurativos para os meus quadros, a minha grande preocupação é destruí-los, eliminar tudo aquilo que pode criar ou sugerir determinadas perspectivas. Nas minhas telas cada bocadinho do quadro tem vida própria. Cada elemento vive por si próprio e independente do que está ao lado. Quanto á escolha das cores Mário Tropa reconhece a sua tendência para os vermelhos, azuis, violetas e rosas que, curiosamente, diz não terem sido as cores do seu tempo de escola. Mas mais do que a intensidade das cores o que lhe interessa são os contrates cromáticos, isto é, aquilo dá uma vibração de cores que, ás vezes, não é real.Com um livro de visitas envergonhadamente utilizado por uma dúzia de visitantes, numa tarde de sábado em que os dedos de uma mão deram para contar as visitas à Casa do Brasil, Mário Tropa acabou a visita guiada à sua exposição falando do seu entusiasmo pelo trabalho e do gozo por agora poder trabalhar num atelier com as condições que sempre sonhou.Enquanto explicava que, para a sua formação artística sempre se reviu muito no surrealismo e, agora mais recentemente, no fantástico, o que espelha a sua maneira de estar na relação com a arte Mário Tropa ia falando também do prazer que lhe está a dar a reconstrução de uma casa de família numa aldeia do concelho de Mação. Pode ver pelas minhas mãos que agora tenho feito tudo, de pedreiro a pintor, rematou, deixando no ar a ideia de que nos próximos anos as histórias que quer continuar a contar podem voltar a construir-se nos antigos caminhos da infância.JAE

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