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Folclore de fato e gravata

Folclore de fato e gravata

Quadros médios e superiores encontram nos ranchos um espaço de cultura e lazer

Desenganem-se os que pensam que o folclore é divertimento de analfabetos. Nos ranchos da região há gestores, advogados, engenheiros e professores que trocam o fato e a gravata pelo traje ribatejano.

Edição de 08.12.2004 | Cultura e Lazer
Ao fim de semana, o director do Centro de Saúde de Torres Vedras despe o fato e a gravata e traja-se a rigor como um noivo de outros tempos no Rancho Folclórico da Casa do Povo de Vialonga. Carlos Agostinho, 48 anos, nasceu na freguesia de Assentis, concelho de Torres Novas, e vive em Vialonga há mais de 18 anos.O MIRANTE visitou alguns ranchos da região e encontrou gestores, médicos, advogados e engenheiros que se orgulham de ser folcloristas e que se irritam sempre que o folclore é tratado de forma depreciativa.“O folclore é uma forma superior de cultura”, refere a advogada Helena Duarte, em Santarém. O professor Raul Grilo, de Mouriscas (Abrantes), diz que é uma ciência que deve ser investigada. E o engenheiro agrónomo Amorim Lopes (Mação) sublinha que o seu grupo de cantares é um embaixador do concelho que representa. Carlos Agostinho, licenciado em gestão de recursos humanos, confessa que aprendeu no folclore coisas que a faculdade nunca ensinou. O gestor foi quadro superior na Fábrica de Vidro Covina e foi director do Centro de Formação Profissional de Alverca. Actualmente dirige um centro de saúde e nas horas vagas é presidente da Casa do Povo, dirigente do PSD e autarca em Vialonga.Com tanta actividade, o gestor ainda arranja tempo para representar o rancho onde tem a esposa (também licenciada em recursos humanos) e os dois filhos. No grupo de Vialonga, que integra dançarinos dos 6 aos 80 anos, não faltam os quadros médios e superiores que convivem num ambiente salutar com os operários. “É o gosto pela cultura popular e pela descoberta que nos une”, explica Carlos Agostinho.“Descobrimos por exemplo que havia salinas na Granja e que Vialonga teve um porto de carga e descarga quando o rio Trancão era navegável”, acrescenta.A pesquisa é uma das motivações dos folcloristas de Vialonga que com a ajuda do dedicado director João Carreiro buscam, nas profundezas da memória dos mais velhos, os usos e costumes de um passado com mais de cem anos.Em Santarém, a advogada Helena Duarte não esconde o seu orgulho em representar o Grupo Académico de Danças Ribatejanas de Santarém. Aqui os quadros médios e superiores abundam numa prova de que o folclore “não é uma diversão de gente pouco culta”. Sem preconceitos, a jurista de 29 anos recorda que entrou no grupo pela mão de uma amiga há 13 anos e resistiu aos períodos mais complicados dos estudos e do namoro. “Fui criando amizades e assumindo a responsabilidade de representar bem o grupo”, refere.Helena Duarte orgulha-se de fazer parte de um dos melhores grupos nacionais e irrita-se quando a palavra “folclore” é utilizada com carga negativa. “Quem conhece a força do folclore e o que tem de bom não faz comentários negativos”, explica.O professor Raul Grilo, 47 anos, também é um defensor acérrimo do folclore como património cultural. Licenciado em administração escolar, o docente dirige o Grupo Etnográfico “Os Esparteiros de Mouriscas”, no concelho de Abrantes. Nas aulas procura sensibilizar as crianças para a importância do folclore e da etnografia e já colheu frutos da sua insistência. No grupo estão oito pares formados por crianças da sua escola. A esposa e os filhos do professor Raul Grilo também dançam. Tiago Grilo, 22 anos, é licenciado em estudos portugueses na área de bibliotecas e o irmão Leandro, 17 anos, está a fazer o secundário. Os manos Grilo seguem os passos dos pais e assim é mais fácil participar nos ensaios e nas deslocações do rancho pelo país fora.O grupo de Mouriscas, formado após o 25 de Abril, tem sete professores licenciados, quatro estudantes universitários que andam de mãos dadas com os trabalhadores rurais e gente das mais variadas profissões. Raul Grilo defende que o folclore é uma arte com muito por descobrir e deve ser estudado.O rancho tem na sua sede um espólio valioso que inclui fotos desde 1800 a 1915 e um conjunto de peças que adquiriram ao museu. É um dos ranchos que melhor traja em Portugal.Na fronteira entre o Alentejo, a Beira Baixa e o Ribatejo está o concelho de Mação. O engenheiro técnico agrário Amorim Lopes é uma das vozes do Grupo Cultural “Os Maçaenses”.O grupo de cantares integra “vários quadros médios e superiores e pessoas com a quarta classe mal tirada”. Amorim Lopes defende que a cultura das pessoas não depende apenas da sua formação académica e “há analfabetos que têm dado grande contributo à cultura popular”. Nelson Silva Lopes
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