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O fascínio pela violência

O fascínio pela violência

Moita Flores explica opções da comunicação social com os gostos das audiências

Moita Flores diz que não há volta a dar. Enquanto a morte e a violência garantirem audiências, grande parte da comunicação social vai continuar a explorar esse filão sem olhar a meios para atingir os fins.

Edição de 08.12.2004 | Cultura e Lazer
Quando a equipa de agentes da Polícia Judiciária comandada pelo inspector Francisco Moita Flores deteve o gang dos famosos irmãos Cavaco foi obrigada a participar num número que não passaria pela cabeça de ninguém. Uma situação que, hoje, cerca de década e meia passada, se tornou vulgar na relação entre comunicação social e determinados sectores da sociedade.A notícia correu célere e um grande aparato de jornalistas e repórteres de imagem concentrou-se junto às instalações da PJ em Lisboa, para cobrir a chegada dos assassinos que se tinham evadido tempos antes da cadeia de Pinheiro da Cruz após um violento banho de sangue. Via rádio, os agentes souberam do circo que se instalara na Rua Gomes Freire e decidiram entrar com os detidos por uma porta secundária.Conta Moita Flores que num ápice realizou-se um “mini-comício” de jornalistas, frustrados por não terem uma imagem para mostrar aos seus superiores. E que, dez minutos depois, os agentes receberam instruções para voltarem a entrar com os detidos pela porta principal da PJ. De onde partiu a ordem, nunca chegou a saber. Mas desconfia. E a encenação fez-se.Moita Flores descreveu a história na primeira pessoa numa conferência realizada esta segunda-feira no auditório da Escola Superior de Gestão de Santarém, no âmbito das comemorações do 17º aniversário de O MIRANTE. O exemplo serviu para demonstrar a importância que a comunicação social, já naquela altura, dava a casos relacionados com violência. Um quadro que entretanto se agudizou e para o qual não há antídoto, diz Moita Flores. Por muito que doa a quem não gosta de ver o sangue espirrar na abertura dos telejornais ou nas manchetes dos jornais.É a lei da oferta e da procura no seu melhor. A perplexidade e o fascínio perante a morte, por exemplo, leva as pessoas a interessarem-se por casos recheados de violência. Moita Flores sobre o processo Casa Pia: “A comunicação social vai ao caso porque sabe que vende, que provoca a adesão das pessoas. Interpela a nossa emoção. Envolve crianças, é um território da controvérsia. E para um jornalista não há melhor terreno”.Nem para os jornalistas nem para os patrões dos grupos de comunicação. “Ai do jornal que não noticiasse a prisão do Paulo Pedroso ou do Carlos Cruz. No dia seguinte não vendia nada”.Posto isto, parece não haver volta a dar. Os jornais e televisões dão ao povo aquilo que o povo quer e a forte adesão popular, neste caso ao processo Casa Pia, leva a que a comunicação social e os agentes da justiça façam render o peixe. “Fazem tudo em prol do espectáculo, porque este é um bom filão”. Para mais, nunca a democratização dos média foi tão longe. E o que disse para o caso Casa Pia vale para o caso do desaparecimento de uma criança – a Joana - no Algarve, onde criticou a comunicação social que participou na “romaria” em que se transformaram as procissões “por alma de uma criança de que não se sabe qual foi o destino”.Só que esse filão agrada a muita gente. Ao povo que sacia a sua curiosidade mais mórbida com detalhes e especulações completamente dispensáveis, à comunicação social que engorda tiragens e audiências e a determinados agentes que adoram a exposição pública. E é difícil dissociar esses factores da democratização no acesso à informação. Hoje, quase toda a gente tem acesso à televisão, à rádio ou a jornais. No mais recôndito lugar do país pode-se acompanhar em directo o que se passa em Lisboa ou em qualquer parte do mundo.Como diz Moita Flores, “esta situação nunca será modificada”. Porque o público prefere mergulhar na espuma dos dias a confrontar-se com a onda que se está a formar. Prefere discutir a eventual prisão de Pinto da Costa a interessar-se pela crise política que se abateu sobre o país. “Para muitos esse era o dia da libertação do país. Nem os pastorinhos de Fátima podiam competir com essa notícia”. E por vezes, conclui, “a onda molha-nos até à cintura ou arrasta-nos com violência”.João Calhaz“Um sonho para realizar”“Cada Natal retoma e fundamenta o sonho de um mundo novo”. É este o pano de fundo da mensagem de Natal do Bispo de Santarém. Com o título “Natal, um sonho para realizar”, a mensagem lembra que “Os votos, os presentes, os cânticos e os símbolos de Natal anunciam uma situação humana e social que corresponda às expectativas profundas das pessoas: A paz alicerçada na justiça; a vida iluminada pela esperança; a união familiar; a atenção e dedicação aos outros; a fraternidade e o acolhimento mútuo; o encanto e a maravilha escondidos na vida e no mundo.” D. Manuel Pelino Domingues fala também no Natal como um convite a “cultivar o projecto de um mundo novo (...) Num mundo frio e vazio, onde cada um vive para os seus interesses pessoais”. E termina: “Todos podemos dar um pequeno contributo e acender uma pequena luz para tornar realidade o sonho de Natal”.
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