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Morte entre irmãos

Na aldeia de Chancelaria, Torres Novas, o clima é de consternação

A aldeia de Chancelaria foi testemunha de um homicídio invulgar, que deixou toda a gente consternada. Um irmão tirou a vida a outro. Na aldeia do concelho de Torres Novas diz-se à boca cheia que o bom matou o mau e reza-se para que a justiça não seja cega.

Edição de 08.12.2004 | Sociedade
Olivier Rodrigues Valério, de 30 anos, morreu no último dia de Novembro num hospital de Lisboa, três dias depois de ter andando à pancada com o irmão Gilberto, dois anos mais velho. Mas são poucos os que choram a sua morte na aldeia de Chancelaria, concelho de Torres Novas.Os habitantes contactados pelo nosso jornal não se cansam de falar dos maus fígados da vítima e da bondade do agressor. Gilberto Valério foi pai e mãe do irmão Olivier, dois anos mais novo. Deu-lhe acolhimento, arranjou-lhe uma pequena casa para viver e tratou dele quando, há dois anos, lhe foi diagnosticada uma hipatite B.Até ser preso pela Polícia Judiciária Gilberto nunca se tinha metido em intrigas, fazendo a sua vida entre a loja de decoração de Torres Novas, onde trabalhava, e a sua casa, em Chancelaria. Uma casa que ficava a escassos metros da que arranjou para o irmão, até aí sem paradeiro fixo.Olivier, pelo contrário, era a “ovelha ronhosa” de uma família desintegrada. A mãe veio de França muito jovem com os dois filhos, acabando por morrer anos depois. O pai, esse, veio agora para o funeral do filho mais novo, que conheceu só em pequeno.Olivier Valério era toxicodependente, alcoólico e pouco dado ao trabalho. Vivia de biscates e chegou a arrumar carros em Torres Novas. Quando não tinha dinheiro para a droga roubava e assaltava casas na aldeia.Esteve preso por diversas vezes e recentemente, por ordem do tribunal, fez trabalho comunitário na Junta de Freguesia de Chancelaria. “Quando não andava drogado ou bêbado não era mau rapaz, mas a maioria das vezes parecia um touro enraivecido”, confessa uma das moradoras da aldeia.No sábado, diz 27, Olivier Valério começou a beber muito cedo, logo pelas oito da manhã. Por voltas das dez horas teve a primeira discussão do dia com o dono do café Luís. Olivier queria tabaco mas não tinha dinheiro e fiado não levava. Leonilde Vieira, esposa do proprietário, tentou por água na fervura pedindo ao marido para se calar e as coisa serenaram.Só que Olivier não estava satisfeito. E há hora do almoço foi a casa do irmão pedir-lhe dinheiro. Gilberto estava a almoçar e ter-lhe-á dito para o deixar em paz, que tinha de ir trabalhar. O irmão mais novo não gostou, rebentou-lhe com a porta de casa – o que segundo os vizinhos, fazia frequentemente – e atirou com um frigorífico para a rua, acabando os dois irmãos por se envolver numa cena de pancadaria.Olivier, um jovem possante e cheio de força – “chegava a carregar com um saco de cimento de 50 quilos em cada braço”, diz Joaquim Grácio, proprietário do café O Galho, onde o rapaz muitas vezes ia comer, beber e ficava a dever –terá alegadamente mandado uma garrafa de água congelada ao irmão, acertando-lhe em cheio no ombro, que, segundo testemunhas do ocorrido, ficou logo inchado.Segundo os vizinhos que presenciaram a cena, Gilberto acabou por agarrar num cabo de uma picareta e atirou-o ao irmão, acabando este por se desequilibrar e cair desamparado, batendo com a parte de trás da cabeça no alcatrão da inclinada travessa da Fonte Velha.Quando a ambulância chegou, Olivier estava consciente, tão consciente que não parava de dizer palavrões, conta a população. Viria a falecer três dias depois, no hospital de Santa Maria, em Lisboa.Leonilde Vieira é uma das habitantes da aldeia que dizem querer visitar Gilberto na prisão, dar-lhe algum consolo. E é peremptória – “Há aqui muita gente disposta a testemunhar a seu favor”. Gilberto está detido preventivamente no Estabelecimento Prisional de Torres Novas, suspeito da prática de um crime de homicídio simples e incorre numa pena que vai dos oito aos 16 anos de prisão.Margarida Cabeleira

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