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O último calafate de Ortiga

O último calafate de Ortiga

Manuel Pires Fontes, 78 anos, continua a praticar a arte
Edição de 15.12.2004 | O poder local aqui tão perto
Tem o corpo direito e alto apesar dos seus 78 anos. A boina basca por cima dos olhos azuis e vivos denota a firmeza de um homem que conheceu a dureza da vida. “Nem quero que me lembre dos dias, dos meses, dos anos que gastei agarrado àquela serra gasta pelo tempo”, conta Manuel Pires Fontes, o último calafate de Ortiga que continua a trabalhar na sua arte. Com a lâmina estreitada pelas muitas vezes que foi afiada, a serra de lenhador escuta, presa às telhas de zinco da oficina do calafate, a sua própria história.“Agora, quando acabam a primária seguem para os colégios e depois para a universidade. Eu fui muito mais esperto. Quando fiz a quarta classe passei logo para a universidade de 14 picotas que o meu pai tinha”. Com 12 anos. “Naquele tempo só se entrava na escola com 8 anos feitos e eu como nasci em Fevereiro, já entrei com 8 anos e meio”.Manuel Fontes corria de picota para picota a içar a água para regar as hortas, enquanto aprendia a carpinteiro de construção civil. Cansou-se de fazer portas e janelas e decidiu-se pelo fabrico de barcos, os picaretos com que os pescadores tiravam do Tejo os sáveis, as lampreias, as sabogas. “O primeiro barco que fiz vendi-o por 950 escudos”, conta. Comprava as árvores - oliveiras, para talhar os braços dos picarêtos, e pinheiros para as restantes peças. Cortava-as em toros grossos e estes eram transportados para a aldeia em carros de bois, depois em camionetas. “Já fiz mais de 300 barcos, para além das reparações”. E cada um demora cerca de um mês a construir. A talhar as dragas e as cavernas, os trancanis e as chumaceiras, o buraco do trapeiro e o pau das bufas. Com o barco montado começa o trabalho de calafetagem, daí a designação de calafate. Com estopa, calafete e martelo, Manuel Fontes preenche todas as frinchas da madeira com a rapidez de uma máquina. Entra depois o pez louro e a borra de gás e o picareto está pronto a pescar.Manuel Fontes, que também foi pescador, recorda que houve dias em que pescou 100 sáveis e dormia no barco para guardar o pescado. “Dormi seis meses seguidos num picareto e nunca acordei com reumático. Agora durmo em colchões de molas e espuma e acordo cheio de reumático. Eu e os outros, porque já não há homens como dantes. Em Ortiga há uns 14 ou 15 com mais de 90 anos, o mais velho tem 101 anos e anda por aí. Agora não prestam para nada com qualquer coisa caem para o lado. Sabe porquê? Dantes bebiam-se uns copos de aguardente de figo e isso dava força”.Força que os 78 anos de vida deste homem não venceram. Continua a fazer barcos em tamanho real e miniatura, a torcer os fios com que se fazem as cordas das redes e a chumbá-las. Na parede uma fotografia sua rodeada de quadras escritas pelo próprio. Conta a sua vida e termina com o agradecimento a um “condão que o meu pai me doou/antes ser sério que rico/e assim mesmo sou”.
O último calafate de Ortiga

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