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Quando era o Menino Jesus que trazia as prendas

Quando era o Menino Jesus que trazia as prendas

Natais de há muitos, muitos, anos
Edição de 22.12.2004 | Sociedade
Maria Rosa Jacinto tem quase noventa anos mas ainda se lembra dos Natais da sua infância. Oriunda de uma família numerosa e humilde, criada numa aldeia do concelho de Abrantes numa época de dificuldades, fala de uma sensação contraditória. “Os Natais eram alegres e tristes”. A alegria provinha da esperança. A tristeza do confronto com a realidade. “ A gente estava sempre à espera que o menino Jesus nos pusesse alguma coisa no sapatinho mas os tempos eram outros, não havia brinquedos como há agora”. Brinquedos havia. Dinheiro para os comprar é que não.Mas a época natalícia não era feita apenas de prendas. “Era uma noite diferente. Escutávamos histórias, comíamos fritos. A ceia era especial naquela noite”, explica.A conversa decorre num lar de terceira idade. As recordações de Natais passados são muito semelhantes. Quem trazia as prendas não era o Pai Natal, era o Menino Jesus. Os sapatos ficavam mesmo na chaminé porque naquele tempo não havia casa sem chaminé. E era mais fácil encontrar presépios com figuras de barro assentes num tapete de musgo do que árvores de Natal enfeitados com bolas coloridas.Também havia meninas ricas, que recebiam bonitas prendas no Natal. Tereza Costa era uma delas. Nascida e criada em Lisboa, filha única de uma família da classe média-alta, os seus Natais eram como contos de fadas. “Um ano deram-me um tanque de lavar a roupa, em cimento. Lembro-me da minha expressão de contentamento: “Oh mãe, até sabão o menino Jesus me deu”,recorda.Tereza Costa lembra-se do tanque e de quase todos os outros brinquedos da sua infância. “Bonecas de pano, serviços de chá e café em miniatura, triciclos em ferro com selim em madeira, carros de bois em madeira...”. Não havia televisão, nem computadores, nem telemóveis. “As pessoas não tinham dinheiro e por isso o Natal não era tão farto como agora. Comíamos o bacalhau com batatas e couves e alguns bolos, depois a família reunia-se à volta da fogueira e ficávamos até altas horas da noite a conversar, a jogar aos pinhões e a contar histórias”, conta António Luís Nunes. E acrescenta. “Não havia a tradição de se enfeitar a árvore de Natal, nem de decorar a casa. Também não se falava do Pai Natal”.Dos Natais de há muito, muito tempo, mantém-se a reunião da família e a tradição gastronómica. A maior parte dos portugueses continua a ter bacalhau com couves na mesa da consoada e há o polvo, o peru, as rabanadas, as filhós, os sonhos, as azevias. Novidades agora são os Pais-Natal dos super-mercados, as árvores de Natal de plástico, as Barbies e os jogos electrónicos. À meia-noite, como sempre, renasce o Menino Jesus. Uma esperança efémera de paz e harmonia que se renova todos os anos.Ana Louro e Célia MarquesAlunas do Curso de Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA)
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