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E porque não o Castelo de Almourol?

Estarei muito atento às próximas “hastas públicas”. Por este caminho, só Deus sabe se, um dia, não surgirá um “governante mais criativo” a propor a venda do Convento de Cristo ou da rosácea da Igreja da Graça de Santarém que já fez cair um deputado nabantino!

Edição de 29.12.2004 | Opinião
Perante o “anúncio da venda” (fracassada) do Instituto Camões e do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, ocorreu-me, subitamente, a obra satírica de José Agostinho de Macedo. Este polígrafo de Beja, sacerdote e “Mestre da Língua Portuguesa”, foi protagonista de escândalos públicos e de vícios privados que chocaram os ovos da hipocrisia do seu tempo.De entre o estonteante rol das suas delituosas turbulências, sublinho os repetidos furtos em bibliotecas, a “pública mancebia” e, consequentemente, a sua expulsão dos Eremitas de Santo Agostinho.Contudo, através do quente sarcasmo peninsular, como referiu Eça de Queiroz, José Agostinho de Macedo soube, como ninguém, transformar o cautério da palavra no despautério da ideia ou da sua própria ausência.O poema Gama, deste clássico, constitui um hino à Língua Portuguesa. A par desta obra, destaco a provocação que o escritor atirou aos governantes da sua época: “Os homens não só se celebrizam pelos monumentos que levantam à arte e à cultura, igualmente se imortalizam pelas obras que erguem à asneira. E assim como há génios na virtude, também há heróis na parvoíce.”Leio e pasmo: vender o Instituto Camões, a “Língua de Portugal” no mundo? Trocar por patacos o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, néctares que representam a alma de quem trabalha, a passar de geração em geração?Já agora: porque não vender o ilhéu do Castelo de Almourol, a estátua de Gualdim Pais ou, mesmo, a Ponte D. Luís?Estarei muito atento às próximas “hastas públicas”. Por este caminho, só Deus sabe se, um dia, não surgirá um “governante mais criativo” a propor a venda do Convento de Cristo ou da rosácea da Igreja da Graça de Santarém que já fez cair um deputado nabantino!Diante disto, só Fernando Pessoa resistiria, na pele do seu heterónimo Ricardo Reis, ao ironizar: “Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo”. Na realidade, não há conformismo que suporte tamanhas loucuras. Quem poderá contentar-se com um espectáculo tão deprimente e com actores tão pusilânimes?Infelizmente, tanto o Professor Cavaco Silva, como o Doutor Mário Soares, a quem chamam os “Pais da Pátria”, não se enganaram no diagnóstico: o mal da Nação não pára de aumentar e a incompetência reinante não cessa de crescer! Porque estamos na santa quadra natalícia, oxalá apareçam, no grande céu do mundo, muitas estrelas a indicar a terapia adequada à crise do Vale do Tejo e ao sofrimento de Portugal!Póvoa da Isenta (Moinho de Vento), 25 de Dezembro de 2004.

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