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Da Loja do Pau ao Cu da Mula

Da Loja do Pau ao Cu da Mula

Ribatejanos são criativos na hora de escolher o nome para os seus estabelecimentos

Existem de norte a sul do Ribatejo e são alvo de sorrisos, admiração, curiosidade ou até mesmo chacota. Referimo-nos aos nomes que alguns estabelecimentos ou empresas ostentam em letras mais ou menos gordas. O MIRANTE foi saber o que leva alguém a chamar Cu da Mula a um restaurante, Campeão a uma agência funerária ou Todos os Santos a uma escola de condução.

Edição de 29.12.2004 | Sociedade
É um local conhecido há mais de meio século na Golegã, quando não passava de um simples palheiro. Lá dentro vivia uma mula, paredes-meias com os fardos de palha. Paredes-meias porque o recinto era dividido por um muro de tijolo – de um lado a palha, do outro a mula, sempre com o cu virado para a entrada, sabe-se lá porquê.Nessa altura já Joaquim Núncio, conhecido por “Farrusco”, guardava ali a pipa de vinho, que costumava oferecer aos trabalhadores que passavam pela capital do cavalo. Estes ganharam o hábito de ir, como diziam, “ao cu da mula”, comer a bucha que sobrava do farnel e beber o vinho do “Farrusco”. E o nome ficou, mesmo depois do palheiro virar adega tradicio-nal, quando um padeiro de Aveiro que vinha vender o pão à Golegã pegou na casa, por altura do 25 de Abril.Hoje o Cu da Mula virou moda, nacional e internacional. Que o diga a dona Céu, funcionária da casa, que atende portugueses e estrangeiros, de guia turístico na mão e na mente a curiosidade de saber como nasceu aquele nome.Mas ainda há quem tenha vergonha de pronunciar uma denominação que considera quase uma blasfémia. “Ainda no outro dia uma senhora ao telefone perguntava se era «do … da mula» ao que respondi «sim, minha senhora aqui é do Cu da Mula”, relata a empregada.De norte a sul do Ribatejo muitos outros nomes de estabelecimentos e empresas fazem qualquer um parar e pensar o que move as pessoas a dar nomes tão pouco comuns às suas casas. Por exemplo, o que é que uma obra de Dante como a Divina Comédia pode ter a ver com uma empresa de restauração? Nada. José Gabriel Quaresma escolheu-o para a sua empresa não porque seja admirador do escritor mas apenas porque achou o nome original. Assim como Sancho Pança, o nome que deu ao seu pronto a comer, situado em Vila Franca de Xira.Embora neste caso o jornalista desportivo confidencie ter um carinho e admiração pela personagem que acompanhava D. Quixote. “Sancho Pança é um nome redondo, que desperta simpatia. E o pança remete-nos de imediato para a comida”, refere José Gabriel Quaresma.Se muitas vezes a denominação tem um cariz popular ou é cimentada ao longo de gerações – como a Casa das Ratas, em Tomar, antigo armazém de cereais, abrigo de muitas gerações de ratos e ratazanas, que virou tasca afamada; ou o Poiso do Besoiro, na Chamusca, onde o “Manel” Besoiro começou por fazer petiscos e hoje é poiso de ilustres comensais - em outros casos advém da dificuldade de arranjar um nome que ainda não exista. No Jorge da Música nunca houve concertos. Há uns anos faziam-se umas noites de fado, talvez para fazer juz ao nome do restaurante/residencial de Azambuja, mas até isso acabou. Jorge Pinto nunca tocou qualquer instrumento musical mas carregou e vendeu muitos enquanto trabalhou numa das mais antigas e prestigiadas empresas do ramo, a Custódio Cardoso.Há 17 anos, quando deixou a empresa e decidiu abrir um café, o nome que achou mais apropriado foi Jorge da Música, alcunha pela qual foi conhecido durante anos a fio. O negócio foi crescendo, do café fez restaurante e aumentou o espaço para albergar uma residencial. Hoje a música não está famosa, mas o empresário lá vai tocando a empresa.Sem mãos a medir anda o “campeão dos mortos”, como já foi apelidado. Mário da Conceição, antigo funcio-nário da Agência Funerária Campeão, em Santarém, quis manter o nome da empresa em memória do seu antigo patrão, Ermegildo do Carmo Campeão, que fundou com um sócio a Agência Funerária Campeão e Cruz, sucessores, corria o ano de 1889.Há 26 anos, o antigo funcionário virou proprietário. Hoje, quase ninguém sabe o seu verdadeiro apelido – é conhecido por todos como o Mário Campeão. Não que ele se importe. Afinal “a tradição é uma coisa muito bonita, que se deve preservar”.Mas não esconde um sorriso quando diz que há quem escolha a sua agência por causa do nome, porque o acham “engraçado”. E com a fé não se brinca.Grande fé devem ter os que escolhem a escola de condução Todos os Santos, no Cartaxo, para se iniciarem na arte de conduzir. Helder Correia, um dos sócios da escola, diz que não pensou nisso quando escolheu o nome. “Tem a ver com o feriado e a feira do Cartaxo, que se faz a 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos”, explica o empresário.Em jeito de brincadeira, Helder Correia remata que, se pelo país fora há escolas com inúmeros nomes de santos, ele e o sócio não quiseram deixar nenhum de fora. “Assim nenhum fica zangado, estão todos incluídos”.Incluídos, ou melhor, imortalizados, ficaram também os que há muitas décadas subiam e desciam a antiga rua da Calça Perra, na zona histórica de Tomar, à procura das meninas da vida que deambulavam por ali. O nome da rua mudou (apesar de continuar a ostentar o antigo por cima da nova denominação) mas houve alguém que decidiu reavivar a memória dos tomarenses, dando a um pacato e singelo restaurante nome tão brejeiro.E por falar em brejeirice serão poucos os que passam por uma das ruas do Cartaxo e não deitam um olhar maroto ao nome da loja que vende toda a espécie de artigos em madeira. Não sabemos se foi propositado mas que a Loja do Pau anda na boca de muitos, lá isso anda...Margarida CabeleiraAs dificuldades do BatichamaQuando há três anos chegou ao Centro de Formalidades de Empresas de Coimbra, Jorge Freitas Mendes, de Tomar, levava uma lista com vinte nomes, da qual, estava convencido, algum daria para fazer nascer a sua empresa de reboques. “Vinte nomes e nenhum deu”, lamenta-se o empresário ao nosso jornal. Depois de uns minutos a matutar no que havia de fazer, Jorge Mendes lembrou-se de um nome que, por brincadeira, a filha lhe tinha sugerido – Bate e Chama. A funcionária do centro de formalidades de empresas ouviu o nome e não ficou lá muito convencida. Depois de alguma “negociação” entre as duas partes o nome acabou por sofrer uma ligeira inflexão e ficou “Batichama”.O empresário não se queixa do negócio. Quando algum automobilista conhecido bate, chama sempre a sua empresa. O pior mesmo são os telefonemas que tem de atender, muitas vezes, de pessoas que querem pedir orçamentos para consertar o esquentador lá de casa. E Jorge Mendes lá tem de dizer que a sua empresa não se dedica a esse tipo de consertos...A difícil arte de escolher um nomeQuem quer constituir uma empresa tem de se dirigir a um dos 12 centros de formalidades de empresas existentes em Portugal (um dos quais na ilha da Madeira) para proceder ao registo, levando geralmente uma lista com vários nomes pré-escolhidos. O problema que se põe é que não são os técnicos destes centros a aprovar ou não a denominação, mas sim o Registo Nacional de Pessoas Colectivas, em Lisboa. Que tem uma série de regras gerais sobre a composição de firmas e denominações, resultantes do disposto no Decreto-Lei 129/98, de 13 de Maio, e no Código das Sociedades Comerciais.O nome da nova empresa deve ser distinto e insusceptível de confusão ou erro com outros já registados. Os vocábulos de uso corrente não são legalmente considerados de uso exclusivo. Como por exemplo Café Central, nome vulgarizado de norte a sul do país.Existem ainda regras e disposições específicas para vários tipos de empresas, nomeadamente associações, cooperativas, sociedades anónimas, de direito civil, em nome colectivo, desportivas ou por quotas.Se estiver interessado em constituir uma empresa, o melhor é consultar a página da Internet do Registo Nacional de Pessoas Colectivas, em www.rnpc.pt
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