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Re-anovado Serafim das Neves

Edição de 04.01.2005 | E-mails do outro mundo
Tive uma passagem de ano de pesadelo. Fui obrigado a gramar o final da Quinta das Celebridades. Eu que nunca tinha visto aquilo paguei-as todas de uma vez. Um ser andrógino, um actor brasileiro de novelas e filmes pornográficos, um visconde ou conde ou lá o que era, de camisa aos quadrados e lenço de pescoço. Tentei todos os estratagemas para me livrar mas não consegui. Estava numa festa particular e era o único que estava interessado em entrar o ano de outra maneira. Dezanove votos a favor e um voto contra. Meu Deus! Até adoeci.À meia-noite houve aquela pausa para a gritaria do costume, engasguei-me com as passas que me enfiaram pelas goelas abaixo e fiquei encharcado da cabeça aos pés com espumante baratucho. Depois foi tudo a correr outra vez para frente da televisão e eu fiquei com um cão pulguento na cozinha. Os dois juntos comemos metade de um presunto. Eu sozinho mandei abaixo duas garrafas de um tinto de rótulo presunçoso mas de paladar bem chungoso. Depois adormeci com o canídeo ao colo e arruinei o meu único fato porque vai ser impossível tirar tanto pelo do tecido. Olho para aquela desgraça e cada vez me convenço mais que o animal ficou careca. Só pode!Como deves imaginar tinha planeado uma coisa bem diferente. Champanhe franciú, lagosta suada, música suave, troca de olhares com uma das convidadas mais jeitosas e generosas e uma madrugada movimentada e desequilibrada. Sai-me sempre tudo ao contrário. Raios me partam. Eu bem tento ser optimista mas não há nada a fazer. O azar persegue-me como aquele polícia do filme “O Fugitivo”.Já lá vão estes dias todos de ano novo e não há melhoras. As guerrinhas intestinas por um lugarzinho elegível nas listas de deputados já começaram nos partidos políticos. O pesadelo da passagem do ano continua. A famelga do segundo esquerdo lá do meu prédio costuma vir bater testos e panelas para a varanda quando chega a meia noite. Os da política batem-se por tachos ao soarem as badaladas das eleições. Não sei quem faz mais basqueiro.Mas não estou aqui para deitar abaixo. Como diz o ditado, a política é um trabalho sujo mas alguém tem que o fazer. E pelo menos ficamos a saber que os escolhidos são os melhores entre os melhores. Aquilo é uma guerra terrível. Maquiavel ficaria horrorizado se voltasse à terra vindo lá das profundezas do inferno. As suas teorias parecem literatura da Walt Disney ao pé dos novos manuais que ensinam como arredar os primeiros da lista para ganhar um bom lugar.Serafim, tu sabes que eu não estou a brincar. Diz-me lá se tinhas estômago para esbracejar e conspirar num partido político qualquer, no meio de uma resma de candidatos a candidatos? Diz-me lá se estavas disposto a vendar a alma ao diabo por um lugarzito elegível? Eu sei que estavas disposto a receber um ordenatito de deputado durante uns anos e as consequentes mordomias. Eu sei que aceitarias de bom gosto servir a Pátria em avassaladoras reuniões das comissões permanentes; em sessões plenárias de derrubar qualquer Mike Tyson do palavreado; em deslocações aos confins do país para visitas a feiras do fumeiro e do queijo da serra. Mas estarias disposto a pagar o preço de entrada nesse clube restrito e tão estimado pelo povo??!!!Um abraço eleitoral do Manuel Serra d’Aire

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