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Resistir atrás do balcão

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No Ribatejo ainda há muitas lojas centenárias abertas ao público e que pouco ou nada alteraram de aspecto

Não aderiram a “modernices” nem investiram um tostão para melhorar o espaço interior. Continuam com os mesmos balcões de madeira, comidos aqui e ali pelo caruncho, o chão de cimento irregular ou de soalho que range a cada passada e com as mesmas prateleiras, atulhadas de quinquilharias. São as velhas lojas do Ribatejo, verdadeiros símbolos de resistência e tradição.

Edição de 05.01.2005 | Economia
“Tem enxadas de dois bicos?” pergunta o transeunte, assomando à porta da loja de ferragens Cotralha e Irmãos, em Tomar. “Quantas quer?”. O empregado responde com outra pergunta e os dois riem-se como se tivesse sido contada uma grande piada. Na loja que Carlos Ferreira Cotralha abriu em 1905, em pleno centro histórico de Tomar, a única coisa nova é mesmo o funcionário, rapaz na casa dos 20 anos. O resto continua quase igual como há cem anos. Cliente que ali entre raramente sai de mãos a abanar. Porque a miscelânea é tanta que é difícil não encontrar o que se pretende entre vassouras e pincéis, funis e foles, tintas e vernizes, pregos, porcas e buchas, macetas, enxadas e sachos, tesouras para podar a vinha ou garrafões para encher de vinho. Tanta coisa num espaço que não deve ultrapassar os 20 metros quadrados.A loja de ferragens Cotralha e Irmãos é um exemplo de resistência comercial. Mas não é a única. De norte a sul do Ribatejo há estabelecimentos centenários que continuam de portas abertas, aparentemente alheios à crise, ao aparecimento de grandes superfícies e à diminuição do poder de compra dos consumidores. Estabelecimentos que passaram de geração em geração sem nunca saírem do seio da família.Qual é o segredo que mantém estes velhos estabelecimentos a funcionar? Jorge Gomes, há 24 anos funcionário na Casa Cabral e Lino mais conhecida por “Cabralão”, em Santarém (ver texto na página ao lado), dá a receita: “Aqui os clientes não precisam de comprar para serem tratados como amigos. Muitos habituaram-se a passar por aqui só para cumprimentar e dar dois dedos de conversa”.Trabalhar com margens de lucro pequeninas também faz parte do segredo. “A loja já teve cinco empregados, hoje sou só eu”, refere Jorge Gomes, adiantando que ao longo do tempo foram incluindo outros materiais para venda, como os atoalhados e até algum pronto a vestir para conseguir sobreviver. “E os preços são mais acessíveis porque a margem de lucro é pequenina”, garante o funcionário do “Cabralão”, a loja mais antiga de Santarém.Em alguns casos, pensa-se até mais nos clientes que pro-priamente no negócio. Como acontece com José Augusto, actual proprietário da mais velha serralharia da Chamusca. A firma José Cipriano Imaginário e Silva mantém ainda a porta aberta por causa daqueles clientes que durante décadas a foram procurando para a reparação das suas máquinas e alfaias agrícolas. Hoje a sobrevivência da casa depende quase em exclusividade dessas reparações. Com as mãos manchadas de óleo, José Augusto pensa alto – “se a serralharia estivesse fechada eles tinham de procurar outra fora da vila”. E porque não quer acabar com um negócio centenário diz andar todos os dias com o credo na boca. “Acabo sempre o ano com menos dinheiro do que quando o comecei”. Herdou a serralharia do sogro, já falecido, a quem chama Mestre Zé. José Augusto não sabe bem há quanto tempo existe a serralharia, mas das contas que faz ultrapassa largamente a centena de anos.“O Mestre Zé morreu com 78 anos e a serralharia já tinha sido fundada pelo seu avô. Já passou por um tio, por um primo, pelo meu sogro...”, vai contando José Augusto enquanto nos mostra o primeiro torno feito na serralharia, uma autêntica relíquia.O actual proprietário já não é do tempo em que se trabalhava sem energia eléctrica. Mas relata o quotidiano da serralharia, contado pela boca do Mestre Zé. “Ali em cima”, diz, “havia uma nora que trabalhava a puxo de um burro e que dava movimento a um freio de transmissão. Era isso que fazia com que aquele torno trabalhasse”.Histórias de outrora, que as paredes interiores de tijolo à vista, o chão irregular de cimento e as máquinas centenárias não deixam apagar. A única remodelação que a serralharia levou foi “um acrescento”, onde está a forja. Cá fora, as paredes foram rebocadas, pintadas de imaculado branco, com uma barra amarela. O portão, esse, não esconde a idade da Serralharia José Cipriano Imaginário e Silva.De geração em geração, os homens da família nunca largaram a José Cipriano Imaginário e Silva. Até ao Mestre Zé que, não tendo filhos, acabou por adoptar uma menina, casada hoje com José Augusto. E continua tudo em família. Até quando Deus quiser.Máquina de escrever ainda vence computadorSentado em frente à velha máquina de escrever alemã, marca “Voss”, António Azevedo conta a história da loja de ferragens mais antiga de Tomar, enquanto os seus dedos já cansados vão carregando nas teclas de escrita AZERT. Ao lado está o computador, bicho com o qual nada quer. “Isso é para gente nova”, refere quem já ultrapassou a casa dos 85 anos.Carlos Cotralha abriu a loja está a fazer agora cem anos, mas a pouco e pouco foi cedendo quotas aos dois irmãos, Lino e Henrique Cotralha, acabando por sair da sociedade pouco antes de falecer.“Foi a casa mais próspera de Tomar e arredores”, diz o actual proprietário, adiantando que quando os dois irmãos mais novos pegaram na casa já ela tinha fraquejado bastante. A doença de Henrique acabou por levar os irmãos Cotralha a desistirem do negócio, cedendo-o a António Azevedo e ao seu sócio José Salvador, ainda antes do 25 de Abril de 74.António Azevedo não é da família mas é como se fosse. Está ligado à empresa desde os 14 anos, quando foi contratado pelos irmãos Cotralha. Saiu para fazer o curso comercial, empregou-se em outras firmas mas nunca deixou de fazer a escrita da loja de ferragens.E é por amizade e respeito à história da loja que vai mantendo as portas abertas. O negócio está fraco, diz, embora mesmo assim vá continuando a dar para as despesas. “Isto hoje só está de pé por carolice”.Com a mente no passado António Azevedo solta um suspiro – “Ah, antigamente vendíamos muito e de tudo um pouco, até produtos farmacêuticos, como tintura de iodo e coisas assim”.Coisas como a louça esmaltada da marca Leão, da qual a Ferragens Cotralha e Irmãos era fiel depositário, como atesta a placa que ainda hoje se mantém na parede exterior da loja.De norte a sul do Ribatejo ainda há empresários que resistem à mudança, agarrados à tradição dos seus antepassados. E muitos clientes que dão graças a Deus por existirem pessoas assim.Margarida Cabeleira
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