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No mundo dos filmes

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Fábio Marques tem apenas 20 anos mas desde muito cedo trabalha no vídeo clube de um familiar

Tem apenas 20 anos mas uma maturidade pouco comum em jovens da sua idade. Talvez porque, como diz, nunca teve pai, e desde muito cedo foi obrigado a fazer pela vida. Hoje Fábio Emanuel Marques trabalha ao balcão de um vídeo clube e não faz projectos para o futuro. “Prefiro viver o presente”.

Edição de 05.01.2005 | Identidade Profissional
Deixou de estudar quando terminou o nono ano. Porque a vida nem sempre corre como gostaríamos Fábio Marques teve de começar a trabalhar muito cedo. “Nunca tive pai e a minha mãe não me pode dar tudo o que queria. Sempre que quis roupa ou um brinquedo tive de ser eu a comprar”.Começou a trabalhar no vídeo clube do primo tinha pouco mais de 14 anos, nos tempos livres do liceu.. Ao fim de três anos teve uma desavença com o familiar e saiu. Nos últimos dois anos fez de tudo um pouco – emigrou para a Suíça, trabalhou como jardineiro, como servente de pedreiro.Mas acabou por regressar a Tomar e ao vídeo clube. Hoje é um empregado com alguma responsabilidade na empresa do primo e não descarta a hipótese de um dia mais tarde poder vir a associar-se na gestão dos três clubes de vídeo que o primo possui, dois em Tomar e um em Ourém.Prefere, todavia, não fazer grandes planos para o futuro. Porque sempre se habituou a viver o presente, a levar um dia atrás do outro. Tem um horário diferente da maioria dos empregados de balcão. Quando os outros se preparam para ir para casa, Fábio começa o seu dia de trabalho. Entra no Mercado do Vídeo às 18h00 e só sai à meia-noite, hora de fecho do estabelecimento.O que não quer dizer que o resto do tempo fique sem nada fazer. “Não estar aqui não significa que estou sem fazer nada. Muitas vezes ando com o meu primo a ajudá-lo a tratar das lojas, ou faço o horário da manhã numa outra loja e depois venho para aqui”.Fins de semana, feriados e folgas são coisas que lhe passam completamente ao lado. “Ontem (dia de Ano Novo) tirei a minha primeira e em princípio única folga deste ano”.Fábio diz não se importar. “Temos de estar a trabalhar quando a outras pessoas estão em casa. É nessa altura que nos procuram para alugar um filme”, refere, adiantando que a vida é feita de sacrifícios. Não considera a sua profissão um trabalho mas sim um emprego. “Não me canso muito, não ando a carregar pesos, basta-me falar bem com as pessoas, respeitá-las e saber estar no meu lugar”. É por isso que vai ganhando amigos entre os clientes do vídeo clube.Alguns dos que lá vão acabam por nem sequer levar qualquer filme. Vão apenas dar dois dedos de conversa, passar o tempo. Fábio é um cinéfilo por natureza. É raro ir ao cinema mas todos os dias, quando fecha a loja, leva sempre um filme ou dois debaixo de braço para ver depois de jantar. “Às vezes começo a ver um filme às três da manhã”, confessa.Sabe os gostos de grande parte dos seus clientes. E há alguns que quando ainda estão a estacionar o carro já têm o filme escolhido por Fábio em cima do balcão.Não viu os milhares de filmes existentes no vídeo clube mas não perde todas as películas consideradas cabeças de cartaz. “Os que não são digamos, filmes Top, deixo para trás, para ver em alturas mais mortas”.Quando um cliente se inscreve, Fábio Marques tenta logo pô-lo à vontade, saber quais as suas preferências, se prefere comédia ao drama, acção e suspense aos romances.Diz não se cansar de ver filmes embora confesse que, de vez em quando, tem de ver um filme bastante diferente do habitual para gostar. “Às vezes satura-me é ver filmes de que não gosto apenas por obrigação”.Apesar de lidar diariamente com pessoas de todas as idades e estratos sociais Fábio diz que não é difícil a convivência. “Basta respeitar e dar-se ao respeito”.Quando as pessoas lhe perguntam se determinado filme é bom, Fábio dá a sua opinião, ressalvando sempre que não passa disso mesmo. “Por exemplo eu não gosto dos filmes do Steven Segal, mas há quem aprecie. Não vou dizer a essas pessoas para não levarem o vídeo só porque eu não gosto”.Já teve algumas situações difíceis de resolver, porque a máxima de “o cliente tem sempre razão” nem sempre é verdadeira. E há clientes e clientes. Os que aceitam o erro e os que partem para a violência verbal e não só. “Já tive clientes que andaram aos pontapés ao balcão porque o filme funcionava aqui e em casa não e não queriam pagar”, refere Fábio, adiantando que, felizmente, esses são a excepção.Tenta não fazer grandes expectativas em relação às novidades. Porque, geralmente, quando isso acontece acaba por ficar desiludido. “Quando os clientes me dizem que já foram ver o filme ao cinema e o acham espectacular já sei que não vou gostar tanto porque a expectativa foi tanta que acabo por não me surpreender com o enredo”, refere.O seu filme de eleição chama-se “Radio”. Não tem grandes efeitos especiais, não é uma história de acção, mas é um filme que marca, que faz com que as pessoas pensem para lá da trama. O facto de trabalhar intensamente também o leva a “desligar-se” de tudo o resto. É por isso que só no primeiro dia de 2005 é que conseguiu ver a catástrofe natural que tinha acontecido na Ásia, oito dias antes.Margarida Cabeleira
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