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À caça de “aceleras”

À caça de “aceleras”

O MIRANTE andou numa viatura descaracterizada da Brigada de Trânsito que filma os veículos em excesso de velocidade

A marca, a cor e a matrícula não podem ser divulgadas, mas o aviso é real: eles andam aí e, para que não hajam dúvidas, filmam tudo. São os carros equipados com vídeo da Brigada de Trânsito, tão temidos pelos condutores. O MIRANTE viajou num deles e viu condutores a mais de 180 quilómetros por hora.

Edição de 05.01.2005 | Sociedade
No parque de estacionamento da Brigada de Trânsito (BT) de Santarém o cabo Carlos Campos introduz uma cassete num gravador vídeo instalado na bagageira do carro. A fita vai registar os excessos de velocidade ao longo da tarde na Auto-Estrada 1. Passam poucos minutos das 13h00 de quinta-feira, 30 Dezembro, quando o soldado Almirante Silva puxa pelo motor de 2 mil centímetros cúbicos em direcção ao Porto. Num pequeno monitor no tablier do carro, Carlos Campos vai vigiando os carros que circulam à sua frente. No canto inferior direito a máquina dá-lhe a velocidade a que o seu colega circula. No canto oposto agitam-se os números relativos à velocidade da viatura que está na mira da câmara instalada perto do espelho retrovisor.Não há muito trânsito. À primeira vista também não há sinais de “aceleras”. Alguns, diz a experiência do cabo da BT, há dois anos no serviço de controlo de velocidade, detectam-se logo à distância pela forma como conduzem. “Hoje vamos até Coimbra porque temos uma mensagem urgente para entregar”, avisa. Apesar da BT de Santarém ter uma área definida para actuar - no caso da A1 é entre Aveiras e Fátima - não está impedida de trabalhar noutros locais. Por isso Carlos Campos leva o comando, parecido com os das televisões, na mão. É com ele que controla a câmara temida pelos condutores. O dedo indicador está em posição para carregar no REC. Quando essa sigla estiver acesa no monitor, significa que tudo o que o condutor fizer está a ser gravado. Tal como a velocidade a que circula, a hora da filmagem e o tempo de gravação. “É preciso obter uma boa imagem, que apanhe toda a via-tura, em que se veja bem a matrícula”, esclarece o cabo da brigada. Bastam cinco a dez segundos para provar a infracção.É perto de Fátima que é apanhado o primeiro condutor. Almirante Silva coloca-se atrás de um Saab e tenta não dar muito nas vistas. O carro descaracterizado da BT vai passando despercebido e vai controlando a velocidade. A intenção é detectar as infracções graves ou muito graves em termos de excesso de velocidade. A primeira situa-se entre os 30 e os 60 quilómetros hora para além do limite e a segunda é toda a que vai para além de 60. Os números no monitor passam dos 170. Almirante Silva pergunta se a gravação está boa e após a confirmação do colega puxa do “pirilampo” azul, escondido entre os dois bancos da frente, e coloca-o no tablier do carro. Acciona as sirenes enquanto Carlos Campos mostra uma raquete vermelha com a inscrição STOP que indica ao condutor que deve parar. O condutor do Saab, residente no Porto, é chamado a ver a filmagem e admite a infracção, resignado. É elaborado o auto enquanto no monitor as imagens seleccionadas se repetem automaticamente saltando a velocidade de 172,80 km/hora. Mais 52 do que o permitido por lei nas auto-estradas. Com base numa directiva da Direcção Geral de Viação é feito um desconto de cinco por cento. A velocidade excessiva deu uma multa de 120 euros, que pode ser agravada até 600 euros por determinação da Direcção Geral de Viação, a quem cabe também aplicar, ou não, a sanção acessória de inibição de condução por um período de 1 a 12 meses. A viagem continua até Coimbra. No regresso, na descida da serra de Aire, as atenções viram-se para um Peugeot desportivo de cor amarela, que passa pelo “carro vídeo” como uma flecha. Almirante Silva pisa o acelerador e segue-lhe o rasto. O aumento repentino da velocidade cola-nos ao banco. O motorista do carro amarelo apercebe-se e diminui a velocidade antes de ser caçado. A BT ainda segue pela A23 entre Torres Novas e o Entroncamento, mas o condutor continua a cumprir. A equipa decide voltar à A1, mas pelo caminho é ultrapassada por três motociclistas a grande velocidade. Inicia-se nova perseguição. A brigada consegue fazer parar um deles, depois do carro ter “voado” a mais de 180 quilómetros. O turno não acaba sem antes se passar pela zona de obras entre Santarém e Aveiras. Aqui a velocidade está limitada a 80 quilómetros/hora, mas há muita gente que não abranda a velocidade. Apesar das faixas de rodagem estarem mais estreitas. Um médico de S. João da Madeira, num Wolksvagen Golf, rola a 131 km/hora. A sirene do carro da BT dá-lhe o aviso de que está a infringir.“Há dias em que não há mãos a medir. Hoje tem sido um dia calmo, o que significa que a nossa acção tem tido efeito. Estamos aqui para prevenir acidentes. Para evitar que o prazer ou bem de uns resultem no mal de outros. E isso passa por punir os que não cumprem”, comenta o cabo da BT no fim do serviço à laia de balanço. António PalmeiroMenos trânsito dá velocidades maioresQuem faz serviço num dos dois carros radar/vídeo da Brigada de Trânsito de Santarém está habituado a ver diversas infracções na estrada. As manobras perigosas e o uso de telemóvel ao volante são as mais frequentes. Apesar de a missão principal ser apanhar os “aceleras”, a equipa da BT actua sempre que a situação é grave e pode originar acidentes. “A nossa missão não é multar por multar, mas sim prevenir. Fazer com que os condutores se consciencializem que é perigoso andar a grandes velocidades”, sublinha o cabo Carlos Campos. Quanto menos trânsito houver na auto-estrada, mais excessos de velocidade são detectados. É nestas alturas que se apanham os verdadeiros aceleras, acrescenta o Almirante Silva. “Às vezes vamos a circular a 130 e aparecem carros atrás de nós a fazer sinais de luz para passar”, descreve.Para se trabalhar neste tipo de serviço não é preciso apenas gostar de conduzir ou andar depressa. É preciso haver sangue frio, bons reflexos e muito espírito de equipa e confiança entre os dois elementos. Os agentes destacados para este serviço recebem formação específica antecipadamente. Aprendem a conduzir a alta velocidade, com cursos que são dados no autódromo do Estoril por especialistas das fábricas das viaturas. Há também uma acção de formação para trabalhar com o aparelho de vídeo. O caso da mota que só parou quando faltou gasolinaÉ normal alguns condutores tentarem fugir quando se apercebem que foram apanhados pela equipa da Brigada de Trânsito que anda em carros descaracterizados. Aconteceu uma vez detectarem uma moto a circular a mais de 200 quilómetros hora, que só parou muito quilómetros depois. O motociclista nunca respeitou os sinais de paragem dados pela BT e andou sempre a grande velocidade tentando escapar ao carro. Mas não contou com um factor que acabou por se revelar fundamental: a gasolina. É que a dada altura a moto ficou sem combustível e para além da multa por excesso de velocidade o condutor ficou logo a saber que ia pagar mais 75 euros por desobediência.
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