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Drama da Tailândia atinge família de Samora

Drama da Tailândia atinge família de Samora

Pai de uma bebé arrastada pelas águas cresceu no Ribatejo

A bebé que o mar arrancou dos braços da mãe na Tailândia é filha de um advogado que cresceu em Samora Correia. Ricardo Carvalho lutou até ao fim para recuperar a filha, mas não conseguiu vencer a causa mais importante da sua vida e no domingo lançou um ramo de flores ao mar.

Edição de 05.01.2005 | Sociedade
No domingo, Ricardo Carvalho aproximou-se das águas que engoliram a sua filha de oito meses e lançou um ramo de flores no mar de Pukhet na Tailândia. Durante uma semana, o advogado que cresceu em Samora Correia e vive em Macau, quase não comeu e não dormiu. Alimentou a esperança de recuperar o corpo de Mafalda. A bebé foi uma das 150 mil vítimas da tragédia do sudeste asiático.A menina de oito meses foi arrancada pela força das águas dos braços da mãe na primeira manhã após o dia de Natal. A mulher Cristina Carvalho, professora de educação física em Macau, também esteve desaparecida e foi salva “graças a um milagre”. A irmã de Ricardo, Irina Carvalho estava de férias ali perto, nas ilhas Phi Phi e também lutou pela sobrevivência num cenário de horror. Esta família conhecia bem este paraíso que de repente se transformou num inferno.Ricardo Carvalho, conhecido por “Kikas”, 34 anos, é um advogado de prestígio em Macau. O pai da menina que chocou o mundo é filho de um notável neurologista e empresário residente em Macau, Vitalino Carvalho e da enfermeira Rosália Gaspar que trabalhou no Hospital de Vila Franca e faleceu há dois anos. Ricardo Carvalho nasceu em Angola, mas cresceu em Samora Correia onde estudou e jogou futebol e andebol. O advogado tem um apartamento e uma casa de herança na vila samorense e a hipótese de regressar às origens não estava posta de lado. O desaparecimento da bebé lançou uma onda de consternação sobre a família e os amigos que deixou em Samora Correia.“Quando ouvi a notícia tive um pressentimento que pudesse ser a nossa menina”, disse a tia Luísa Gaspar. Um telefonema para Macau foi suficiente para confirmar o pior.Reconstruir a vidaCristina Carvalho, 31 anos, não conseguiu salvar a filha e sofreu algumas lesões que obrigaram ao seu internamento em Banguecoque. Regressada a casa em Macau, recupera agora de um estado de choque. O marido despediu-se da filha com um ramo de flores e procura forças para ajudar a mulher e reconstruir a vida. “A dor é tão inqualificável que temos de ter alguma esperança para ultrapassar e refazer a vida”, referiu.Mafalda era a primeira filha do casal. A família residente em Samora Correia lembra a felicidade do último encontro no dia 14 de Agosto quando a bebé foi baptizada. “Era uma bebé linda e cheia de vida”, contou uma tia a O MIRANTE.Ricardo Carvalho não acatou os primeiros pedidos das autoridades tailandesas para abandonar o país por razões de segurança porque o risco de epidemias é elevado. Aquele pai desesperado suportou o cheiro da morte e lutou até ao limite para recuperar o corpo da sua menina. Não conseguiu e na hora de sair da Tailândia deixou uma última esperança nas autoridades que procedem à identificação dos cadáveres.O advogado é um homem revoltado pela falta de eficácia das autoridades locais. “Nas 24 horas após a tragédia não houve procura de sobreviventes”. As autoridades receavam novas investidas do Tsunami.Ricardo Carvalho pediu aos jornalistas que respeitassem a sua dor. Apesar de estarem presentes vários repórteres de imagem na praia ninguém captou o momento em que lançou as flores ao mar no domingo.Enquanto Ricardo Carvalho e os amigos procuravam a bebé, alguns turistas apanhavam banhos de sol e mergulhavam nas águas. Será que não sentiram o cheiro da morte e a dor das famílias enlutadas?Nelson Silva Lopes
Drama da Tailândia atinge família de Samora

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