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Quando o passado mexe com o presente

Demora nas pesquisas arqueológicas em Santarém motiva críticas

As pesquisas arqueológicas em Santarém estão a prejudicar o dia a dia dos moradores da zona dos Combatentes, que estão há algumas semanas com um dos acessos às suas casas cortado.

Edição de 05.01.2005 | Sociedade
O presidente da Assembleia Municipal de Santarém, José Miguel Noras, criticou, no dia 29 de Dezembro, o arrastar dos trabalhos arqueológicos no Largo Cândido dos Reis, que impedem o acesso rodoviário à Avenida dos Combatentes. O responsável pelas escavações de onde foram já retiradas centenas de esqueletos diz que se trata de um trabalho meticuloso que não pode ser feito à “pazada”.As pesquisas encontram-se em curso naquela zona há várias semanas e provocam alguns contratempos não só aos moradores como a muitos utentes do Centro de Saúde de Santarém, que são agora obrigados a dar uma volta maior para aceder a essas instalações. José Miguel Noras, que falava na sessão da assembleia municipal, ressalvou que a intervenção arqueológica nessa zona é digna de elogios, mas afirmou não perceber porquê tanta demora em concluir os trabalhos.“Será que o Largo Cândido dos Reis é o local certo para praticar arqueologia extensiva - não me refiro ao método, refiro-me ao tempo -, bloqueando o acesso directo ao Bairro dos Combatentes?”, questionou o autarca.E as perguntas de Noras não se ficaram por aí, com críticas implícitas à exaustiva pesquisa em curso que já trouxe à luz do dia, naquele largo, mais de 400 esqueletos.“É assim tão difícil admitir que as gerações vindouras poderão, com menos transtornos e menores danos patrimoniais, conseguir ainda melhores resultados, mercê do aperfeiçoamento dos métodos e das técnicas? Já atingimos o topo do conhecimento e da investigação?”.Os responsáveis camarários presentes na sessão não responderam à intervenção nem deram qualquer explicação adicional. Mas o responsável técnico pelas pesquisas, o arqueólogo António Matias, explicou a O MIRANTE que o elevado número de esqueletos descoberto e o tratamento que esse tipo de achado pressupõe justifica a morosidade. Além disso há que contar com imprevistos, como o que surgiu recentemente. À entrada da avenida dos Combatentes foi detectada uma sapata de uma antiga construção, que tem de ser estudada e registada. Isso obriga à deslocação temporária de pessoal para essa tarefa que deveria estar a escavar esqueletos. O que vai implicar algum atraso na conclusão dos trabalhos de desenterramento dos esqueletos, prevista para a próxima semana.O arqueólogo explica ainda que “qualquer vestígio arqueológico ou antropológico que possa ser afectado pela obra, legalmente, tem de ser protegido”. E a protecção passa pelo seu levantamento e registo, neste caso dos esqueletos. Um trabalho “meticuloso e rigoroso que demora o seu tempo e que não pode ser feito à pazada”, diz o técnico da Câmara de Santarém.“Estamos a agir em conformidade com a lei vigente. Quem não deve não teme, até porque estamos a ser fiscalizados pelo Instituto Português de Arqueologia”, continua António Matias, afirmando que há colegas que ficam surpreendidos por a sua equipa já ter levantado uma tão grande quantidade de esqueletos em tão pouco tempo.O local onde actualmente decorrem as escavações situa-se na confluência de uma necrópole islâmica medieval com uma necrópole cristã. “É uma realidade arqueológica que não aparece com muita frequência e é por isso que deve ser registada com todo o acuidade e rigor”, diz António Matias.Os achados estão a ser depositados na reserva de arqueologia da câmara.

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