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Sida alastra para fora dos grupos de risco

Sida alastra para fora dos grupos de risco

Casos estão a aumentar na região, tal como no resto do país

Nas primeiras consultas de despistagem de Sida aparecem cada vez mais indivíduos heterossexuais adultos, muitos com uma vida familiar estável, contrariando a ideia de que este é problema que só afecta homossexuais e toxicodependentes.

Edição de 05.01.2005 | Sociedade
Quando se fala de Sida (síndrome de imuno-deficiência adquirida) não há grupos de risco, mas comportamentos de risco. Uma máxima que os médicos a todo o custo tentam transmitir para que não se continue a pensar que a doença só afecta homossexuais e toxicodependentes. Às primeiras consultas dadas nos hospitais da região ocorrem cada vez mais heterossexuais, principalmente homens em idade adulta. Não há estatísticas, mas os casos estão a aumentar e a prostituição é uma das causas.“A Sida é uma doença que começou mal”, opina Graça Amaro, médica internista do Centro Hospital do Médio Tejo que em 2000 iniciou as consultas de doentes seropositivos no hospital de Torres Novas. “A infecção pelo HIV apareceu ligada a grupos de risco e continua associada a essa faixa, mas não há grupos de risco, há sim comportamento de risco. O uso de preservativo é a única forma de impedir o contágio”.Nas primeiras consultas em Torres Novas aparecem cada vez mais homens adultos, entre os 40 e os 50 anos, heterossexuais e muitos deles casados, tal como acontece nas outras unidades hospitalares da região. Em Abrantes, onde as consultas começaram em 1996, devido à criação do Projecto Homem, vocacionado para apoio aos toxicodependentes, os primeiros doentes começaram a ser en-viados para o hospital por esta instituição e também pelo Centro de Apoio a Toxicodependentes (CAT). A maior percentagem de doentes que recorre a estas consultas continua a ser de consumidores de drogas e heterossexuais, entre os 30 e os 40 anos.“Temos doentes dos concelhos da área de influência do hospital, mas também alguns que vêm de mais longe para que não se saiba que são seropositivos na sua área de residência”, adianta Fernanda Coutinho, internista em Abrantes.A Sida é tida como uma doença que surge por comportamentos socialmente reprováveis, entendimento que aliado ao facto de ser contagiosa a torna uma doença maldita. “Os doentes queixam-se de serem discriminados, têm medo de perder o emprego se alguém souber do seu estado de saúde”, continua Fernanda Coutinho.“É pura ignorância”, reforça Graça Amaro, recordando outras doenças bem mais contagiosas como é o caso da tuberculose. “Sabe-se que a Sida só se transmite por via sexual ou sanguínea, a tuberculose é pela saliva, basta tossir ou espirrar”. O uso do preservativo é o único método para impedir a propagação da doença para a qual ainda não foi descoberta uma vacina ou um fármaco eficaz. A extrema capacidade de mutação do vírus dificulta todo o trabalho de investigação. “Tem sido investido muito dinheiro, mas ainda não foi possível”, diz Fausto Roxo, internista no hospital de Santarém e um dos médicos que faz as consultas de despistagem e tratamento de doentes seropositivos. No entanto, “tem havido grandes progressos” ao nível da comodidade do tratamento. Dantes um doente infectado pelo HIV tinha de tomar 20 a 30 comprimidos por dia, hoje bastam dois ou três comprimidos numa única toma.As campanhas de sensibilização para a Sida iniciadas há cerca de 20 anos dirigiam-se sobretudo a jovens inseridos nos chamados grupos de risco – homossexuais e toxicodependentes. Actualmente têm de ser direccionadas para todas as faixas etárias, sexualmente activas. “A prevenção tem sido mais dirigida para os grupos etários mais jovens, o que acho bem, mas perante o actual panorama elas terão também de ser dirigidas para os grupos de idade mais avançada”.Pela sua experiência no hospital de Santarém, Fausto Roxo esclarece que actualmente a maioria dos doentes de primeiras consultas é composta por heterossexuais com mais de 50 anos, infectados sobretudo pelo recurso à prostituição. “São homens, na sua maioria, e a infecção surge numa idade em que pensam que já não lhes vai acontecer mal nenhum. O recurso à prostituição em idade mais avançada está também relacionado com o aumento de esperança de vida e de actividade sexual, incentivada pelo uso de determinados fármacos, como o Viagra e outros”.Numa faixa etária mais avançada, há também várias mulheres no ficheiro de Fausto Roxo, contagiadas por via sexual, na maioria dos casos pelo parceiro. Em Santarém, as consultas de seropositividade iniciaram-se em 1996, altura em que homossexuais e toxicodependentes constituíam a maioria de doentes. Oito anos depois, os consumidores de drogas por via intravenosa, apesar de serem o maior número das largas centenas dos doentes seguidos neste serviço, registam uma ligeira quebra e os homossexuais são cada vez menos. “Muito provavelmente porque as primeiras campanhas, a nível mundial, foram dirigidas a estes grupos”.Os doentes seropositivos têm de ser seguidos o resto da vida. Não há altas nestas consultas. A terapêutica adequada a cada caso prolonga a qualidade de vida destas pessoas, mas ainda se regista uma percentagem significativa de abandono. “Na terapêutica o pior é o abandono. Sempre que um doente deixa de tomar os medicamentos prescritos, o vírus cria resistência e o tratamento é muito mais complicado”, afirma Fausto Roxo.Em Abrantes, Fernanda Coutinho tem um ficheiro com cerca de 80 doentes e o abandono por retorno ao consumo de drogas é considerável. Também o custo dos medicamentos por vezes leva ao abandono das consultas e ao consequente agravamento da doença. “Às vezes dizem que tomam os medicamentos e não tomam, o que é muito grave”, continua Graça Amaro.Os fármacos anti-retrovirais, que impedem a multiplicação do vírus, são de distribuição gratuita, mas os profilácticos que contrariam o aparecimento de doenças colaterais, as chamadas doenças parasitas, têm em alguns casos de serem custeados pelos doentes. Em Santarém todos os medicamentos são gratuitos. No Centro Hospital do Médio Tejo há pelo menos um bactero-estático que é pago pelo utente, embora o seu preço seja bastante baixo. No Hospital Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira, a situação é semelhante. Os doentes de primeiras consultas em que se diagnostiga infecção por HIV são cada vez mais heterossexuais adultos. No entanto, não foi possível recolher dados mais exactos sobre a realidade dos concelhos abrangidos por esse hospital. Apesar dos sucessivos telefonemas para o Hospital Reynaldo dos Santos não conseguimos estabelecer o contacto com a médica que segue os casos de seropositividade.Margarida TrincãoConsultas específicas para grávidasA partir das 14 semanas, as grávidas seropositivas são seguidas pelos hospitais de Santarém e de Torres Novas, que recebe muitos doentes de Tomar. Em Abrantes as consultas começam este mês.A percentagem de êxito, ou seja, do não contágio do feto, é elevadíssima. “Em Santarém não me recordo que tenha havido contágio da mãe para o feto”, diz Fausto Roxo. Em Torres Novas o cenário é idêntico havendo raríssimos casos de insucesso.Se a terapêutica falhar nenhum dos hospitais da região tem consultas específicas para bebés serropositivos. As valências pediátricas fazem algum acompanhamento, mas as crianças são encaminhadas para o hospital da Estefânia, em Lisboa.Na região, os doentes começam a ser seguidos a partir dos 15 anos, tendo sido registados muito poucos doentes com esta idade em qualquer das unidades hospitalares contactadas por O MIRANTE.Detectar a tempoNa Sida, como em qualquer outra doença, o diagnóstico precoce prolonga a qualidade de vida do doente, embora a cura para o síndrome de imuno-deficiência adquirida continue por descobrir.Médicos de família, centros de atendimento de toxicodependentes (CAT), centros anónimos de detecção (CAD), a funcionar em alguns hospitais como o de Santarém, canalizam os doentes para as consultas de seropositividade e a este nível muito se tem feito.Graça Amaro defende que as análises de seropositividade deviam ser feitas por rotina tal como as ba-ctereológicas ou à hemoglobina e não apenas durante a gravidez. Mas Fausto Roxo tem uma opinião contrária: “Nas grávidas essa análise é feita, agora a generalização de rotina para despistagem universal não me parece necessária. As pessoas podem recusar com toda a legitimidade”. Actualmente, a análise só pode ser feita com autorização do doente, a não ser no caso das grávidas. De facto, “por pura ignorância” afirmam os clínicos, os doentes seropositivos continuam a ser olhados de lado. Já não transportam ao pescoço um chocalho como os leprosos na Idade Média, mas muitos têm medo de perder o emprego e nos cafés são servidos em copos de plástico.“Apesar das muitas campanhas que já se fizeram continua a ser assim, embora a Sida só se transmita por contacto sexual ou sanguíneo”, reforça Graça Amaro.
Sida alastra para fora dos grupos de risco

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