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Da construção para a peixaria

Diamantino Ferreira Lopes, 58 anos, comerciante

Para estar atrás de um balcão é necessário ter muita calma, porque há clientes muito difíceis. O ensinamento é de Diamantino Ferreira Lopes, comerciante no Entroncamento, que por motivos particulares deixou a construção civil para se dedicar ao comércio do peixe congelado.

Edição de 12.01.2005 | Identidade Profissional
O dia-a-dia está definido há muitos anos. Diamantino Ferreira Lopes levanta-se às 07h30, às oito da manhã abre a porta da peixaria e às 20h00 acaba a sua jornada diária. A rotina é a mesma de segunda a sábado, mas o comerciante não se queixa por aí além.“Gosto daquilo que faço, embora às vezes me aborreça um pouco e pense que este é mais um trabalho de senhoras que de homens”, diz recordando que o que mais gostava de fazer era continuar a profissão que teve - construtor civil.Diamantino Lopes, 58 anos, nasceu na freguesia de Abiul, concelho de Pombal, e com 18 anos emigrou a salto para França. “Na altura, as coisas eram bem difíceis. Demorei oito dias a chegar a Paris, onde tinha familiares. Da minha terra fomos mais seis, mas o grupo, vindo de diversas terras, era de 169 homens e uma mulher. Nunca mais me esqueço”.Não fez o serviço militar, obrigatório à época e que levava quase inevitavelmente à mobilização para a guerra colonial, o que o impediu de entrar em Portugal durante 12 anos e meio. Depois regressou e a intenção era conti-nuar na construção civil. Comprou uns lotes de terreno no Entroncamento e nas imediações e ainda construiu alguns prédios.“Ao mesmo tempo abri duas peixarias que a minha ex-mulher geria, enquanto eu trabalhava na construção civil. Mas a vida deu uma volta, divorciei-me e achei que o melhor era continuar com o negócio do peixe”.No entanto, ainda não perdeu a esperança de mandar construir nos lotes que ficaram para si. “Vamos ver, para já trabalho na peixaria”.Ser comerciante é uma actividade que requer muita calma: “Há clientes muito difíceis. Por vezes estou a apresentar um bom peixe, eu gosto de servir bem para o cliente voltar, ou um bom bacalhau e as pessoas parece que desconfiam e acabam por levar um de pior qualidade. Em qualquer lote há sempre bom e menos bom”, remata.A oferta deverá ser de qualidade porque, segundo diz, tem clientes de há vários anos e muitos deles vêm de fora do Entroncamento. Mas o negócio, como actualmente sucede com a maior parte dos sectores de actividade, já foi melhor, embora Diamantino Lopes atribua o decréscimo das vendas – “não muito significativo” – mais à concorrência do que à crise económica. “Há muita oferta, muita concorrência, basta ver a quantidade de lojas que existem. A maior parte das pessoas trabalha no comércio”.A opinião é também justificada pelo tipo de produto mais vendido, o peixe mais caro tem maior procura. “No Ano Novo o que saiu primeiro foi o camarão tigre gigante que é vendido a 56,30 euros o quilo, depois foram as sapateiras, o marisco”.Mesmo sem ser em épocas festivas, os clientes da peixaria de Diamantino Lopes preferem o espadarte, o cherne – “que não é cherne, mas sim perca, em Portugal é muito raro aparecer cherne” – às pescadas pequenas e muito mais baratas.A propósito da escolha dos produtos, Diamantino Lopes recorda uma vez em que, de facto, tinha cherne para vender. A cliente comprou o peixe e quando voltou reclamou, porque não tinha comprado cherne: “O que ela queria era a perca, veja lá”.Um pequeno acidente, rapidamente esclarecido, que não faz regra. O comerciante diz que ao longo dos quase 20 anos em que já está na actividade nunca teve problemas por o peixe ou outros produtos alimentares que vende não estarem em condições. O maior aborrecimento de que se recorda foi quando apresentaram uma queixa na PSP contra ele.“Acusaram-me de estar a vender rissóis a uma cliente sem usar luvas. Fui chamado à esquadra. E tive que desmentir”. Neste tipo de actividade a alteração dos hábitos alimentares é evidente. Para além do peixe de melhor qualidade, também os rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau e outros produtos semelhantes passaram a ter menos procura. “Os meus clientes fogem um pouco dos fritos, mesmo dos caseiros que são mais procurados do que os artigos pré-congelados”, esclarece.Margarida Trincão

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