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A taberna do “Guerra”

A taberna do “Guerra”

Herdou o negócio e a alcunha do pai
Edição de 12.01.2005 | O poder local aqui tão perto
Os copos de três bebidos de um trago e terminados com um grande ah! seguido de uma limpeza da boca com as costas da mão é um cenário de outras épocas. As tabernas foram encerrando pouco a pouco e mesmo nas aldeias rurais passaram a ser meras recordações. Em Vale de Cavalos, a taberna do Guerra é uma das poucas que resistiram à evolução dos tempos e também uma das mais antigas.O balcão, os bancos, os armários onde se escondem os pipos são os mesmos que Hipólito Correia dos Santos, “o Guerra”, mandou instalar em meados dos anos 40. O filho Manuel Rosa Hipólito dos Santos, agora com 82 anos, herdou o estabelecimento perto do 25 de Abril e conservou tudo como estava, incluindo a cor vermelha do mobiliário, apesar de ser do Sporting. “É tudo igual”, confirma o taberneiro que além da taberna herdou a alcunha do pai. “Chamavam-lhe o Guerra porque logo na escola era muito turbulento. Eu também tinha as minhas coisas”, conta Manuel dos Santos, encostado a um canto do balcão.Depois da escola, Manuel “Guerra” aprendeu o ofício de sapateiro. Quando o pai morreu mudou de profissão, mas dantes o negócio era melhor. A taberna enchia-se de homens - “porque isto não são meios para mulheres” – que iam e vinham para os campos. Os copos, mais de branco do que de tinto – “agora é que é moda beber vinho tinto” – despejavam barris e barris. Outros tempos. “Dantes eram carros de bois e mulas a passarem para cima e para baixo, agora já nem bicicletas se vêem”. Conversa num tom de voz baixo e pausado de quem já não está habituado a muitas falas. Solteiro, porque “nunca calhou casar”, vai mantendo a porta da taberna aberta para se entreter. Até ele próprio deixou de beber: “Foi há coisa de cinco anos, antes disso de vez em quando andava com elas calçadas”. Os copos de vinho custam 25 cêntimos, mas os cafés deram cabo do negócio.“No tempo do meu pai faziam-se petiscos, eu deixei-me disso, mas nunca houve jogos de cartas, ou mesmo chinquilho. Nem de política se falava”, continua.Pior que a escassa freguesia, é estar sujeito a que lhe entre pela porta gente que não vem por bem. “Em Novembro fui assaltado fiquei sem documentos e até os óculos me levaram. Tive de ir buscar uns que eram do meu pai”, diz enquanto, com cuidado, vai abrindo as hastes da velha armação de aros redondos feitos de massa para ver as suas fotografias na máquina digital. “Fiquei bem pois”.
A taberna do “Guerra”

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