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A primeira “ovorotunda” de Portugal

Uma prenda no sapatinho
Edição de 12.01.2005 | Opinião
Crónica de humor e omeleteAo que parece, as galinhas dos campos de Santarém juntaram-se todas, vieram à cidade e puseram, aqui, o maior ovo de que há memória. Vai para o Guiness. Fica no Largo Cândido dos Reis. Tamanha honraria justifica sacrifícios e desconfortos. Não há prémios sem trabalhos prolongados. A generalidade dos escalabitanos terá ficado feliz. Nem sempre as galinhas deixam o campo para testemunhar os seus afectos por uma cidade. Cá por mim, preferia vê-las à solta, ou na capoeira, mas lá no meio rural a que pertencem.Pode ser uma posição solitária mas, quando agora passo junto ao “ovão” de Santarém, sinto mais saudades do campo e entendo a lição das galinhas: é necessário voltar às raízes, ao espaço delas, onde a vida começa e o stress acaba. Com a nova “ovorotunda”, tenho, também, a sensação de que perdi o que tinha e não ganhei nada melhor em troca. É como se me tivessem destruído o “Opel Zafira” em que me desloco e, para compensar, me entregassem um “Opel Astra” (passe a publicidade), dizendo que este pode andar mais depressa. Porém, nenhuma banha da cobra me convenceria que eu tinha ficado melhor servido com essa trapalhada!Aquando das obras pós-terramoto de 1755, o Marquês de Pombal mandou a calçada sobrante de Lisboa para fazer a linda praça de Vila Real de Santo António. Ainda acredito que a calçada à portuguesa, retirada em benefício do “ovão”, possa ir para as freguesias rurais deste concelho, retribuindo o gesto das nossas galinhas campestres. Fica, de qualquer jeito, um prémio de consolação: Santarém não se deixou fulminar pela doença da “rotundomania”. Toda a gente tem rotundas para dar e vender. Nós, por bênção da geometria, ficámos com a primeira “ovorotunda” de Portugal. Sendo assim, mesmo contrariado, deixo o “Zafira” e irei montar o “Astra”. Experimento. Daqui por uns anitos, troco!Post Scriptum 1 – Largo das Galinhas?Discordo da carta de Armando Ferreira, propondo que o Largo Cândido dos Reis passe a chamar-se Largo das Galinhas. A minha posição é bem simples: deste ovo gigante, um dia, sairão pintos. Estes regressarão ao campo e tudo voltará ao normal. É só por isto, meu Caro Armando, que eu discordo do “Largo das Galinhas”!2 – Até ao últimoesqueleto?Os resultados da intervenção arqueológica em Santarém são notáveis e os seus autores tornaram-se dignos dos maiores elogios, como aliás, em tempos, já referi. Mas será que o Largo Cândido dos Reis, onde está a “ovorotunda” de Santarém, é o local certo para praticar “arqueologia extensiva” (não me refiro ao método, refiro-me ao tempo), bloqueando o acesso directo ao Bairro dos Combatentes? Será que, ao fim de tantos séculos, nenhum esqueleto muçulmano ganhou direitos de usucapião? É assim tão difícil admitir que as gerações vindouras poderão (com menos transtornos e menores danos patrimoniais) conseguir ainda melhores resultados, mercê do aperfeiçoamento dos métodos e das técnicas? Já atingimos o topo do conhecimento e da investigação? Depois de nós, será o dilúvio? O exemplo daqueles que, nos anos 60, nos deram esta oportunidade arqueológica não merecerá ser (parcialmente) seguido? O que iremos, então, deixar para pesquisa arqueológica aos nossos netos? O último esqueleto?Póvoa da Isenta (Moinho de Vento), 31 de Dezembro de 2004.

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