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Quando as perturbações mentais degeneram em violência

Quando as perturbações mentais degeneram em violência

Aluno de Almeirim atacou uma funcionária e homem de Alpiarça ameaçou vizinhos com faca

Desde o início do ano a GNR registou dois casos de perturbação mental associada a actos violentos que motivaram internamento no Hospital de Santarém. O director do serviço diz que os casos desse género não têm aumentado.

Edição de 12.01.2005 | Sociedade
Na quinta-feira, dia 6, a GNR de Alpiarça deteve um homem que andava a ameaçar as pessoas na rua com uma faca. Por apresentar sinais evidentes de perturbação mental, o detido foi entregue aos cuidados do Hospital de Santarém, onde está internado no serviço de psiquiatria. É um dos cerca de 400 casos anuais de internamento nesse serviço. Três dias antes um aluno da Escola Secundária Marquesa de Alorna, em Almeirim, amea-çou uma funcionária do estabelecimento de ensino com uma navalha. Segundo a GNR, o caso passou-se na segunda-feira depois do aluno ter sido advertido por ter pegado fogo a um caixote do lixo. Conforme relatório da Guarda, o estudante, de 15 anos, tinha uma pequena navalha dentro do bolso com a qual ameaçou a funcionária. Encostou-lhe a lâmina ao pescoço, mas não houve nenhuma lesão. O jovem sofre, alegadamente, de perturbação mental. Pelo que está a ser tratado no serviço de Psiquiatria do Hospital de Santarém. Estes são os dois primeiros casos conhecidos este ano. Nos últimos dois meses houve mais duas situações que chegaram ao conhecimento público, elevando para quatro o número de casos. Uma devido ao insólito do doente andar nu pela rua em Almeirim. O outro por razões mais trágicas, quando a pessoa pôs termo à vida atirando-se para debaixo de um comboio na zona de Ribeira de Santarém. Na região o único hospital com internamento psiquiátrico é o de Santarém, desde há três anos. No Hospital de Vila Franca de Xira os casos são atendidos nas consultas da especialidade e os casos que necessitam de hospitalização são encaminhados para Lisboa. O mesmo acontece no Centro Hospitalar do Médio Tejo (que engloba as unidades de Torres Novas, Tomar e Abrantes).O director do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital de Santarém esclarece que estes casos revelam alterações no contexto social do país. José Salgado considera que as situações de perturbação psíquica não têm aumentado, mas tem-se assistido a uma maior exposição pública. No entender do médico estes casos inserem-se no tipo de doenças psicóticas da área da esquizofrenia, ou patologias semelhantes. E que sempre houve pessoas a sofrer destas doenças, só que não estavam tão expostas publicamente e eram mais toleradas pela socie-dade. Segundo o director do departamento, que recebe 400 internados por ano, “antigamente havia uma protecção maior da família aos doentes. Havia mais acompanhamento. Hoje em dia a sociedade é menos tolerante. E por qualquer problema, por alguma perturbação, entregam os doentes no hospital, quando em muitos casos as situações podiam ser contidas em casa”, sublinha. José Salgado identifica algumas causas que levam as pessoas a terem comportamentos estranhos, algumas vezes em público. Para além dos factores traumáticos, há o consumo de drogas e a imigração. Nos últimos tempos têm aparecido alguns imigrantes de Leste que precisam de ser internados. No caso das drogas, o médico chama a atenção sobretudo para o ecstasy e para o LSD. Mas a cannabis também “é extremamente desestabilizadora, sobretudo em pessoas com a sensibilidade mais apurada”. José Salgado diz ainda que as doenças do foro psicológico não escolhem faixas etárias nem escalões sociais. A solidão, o individualismo e a competitividade social e laboral são outros factores que podem degenerar em perturbação psíquica. No entanto, ressalva, as pessoas que desenvolvem este tipo de quadro patológico “já têm biologicamente um terreno favorável”.
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