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Uma pouca vergonha

Edição de 26.01.2005 | Opinião
Antes de casar, a minha irmã Isabel chegou a namorar um médico de Santarém. O pai dele era viúvo. A mãe tinha morrido num trágico acidente de viação, nos tempos em que os camiões levavam carga de fora da caixa, bastando que se colocasse uma bandeira vermelha nas extremidades das barras metálicas ou dos troncos que eram transportados.Como se pode calcular, à noite a tal bandeira vermelha era de uma eficiência impressionante. O que o condutor do veículo de trás via eram as luzes do pesado. Não imaginava que mais próximo do seu automóvel se encontrassem objectos que iriam entrar pelo seu pára brisas dentro.Assim perdeu a vida a mãe deste clínico escalabitano. E ficou viúvo o pai dele, um reputado economista. Esse faleceu em circunstâncias também dramáticas. Era um homem solitário desde que passara ao estado de viuvez. Todas as quartas feiras, ia à “ginástica”, eufemismo que utilizava para se referir aos encontros íntimos - que não amorosos – com membros do sexo oposto que saíam enriquecidas graças a tais reuniões.Veio ele a morrer de SIDA.Esta síndroma está a afectar cada vez mais as camadas idosas da população portuguesa. A razão relaciona-se com o conhecido Viagra.Ainda assim, a impotência continua a causar muitas dificuldades de ordem psiquiátrica.A consequência mais comum é o convencimento de que a mulher se tornou infiel desde que deixou de haver relações sexuais entre o casal. Ela tem de ir buscar satisfação a outro lado.Certa vez, no Ribatejo, um homem estava empoleirado numa escada, no seu quintal, a cortar os ramos de uma árvore de fruto. O vizinho do lado não suportou aquela pouca vergonha. Sim, ele sabia muito bem que tudo aquilo era um disfarce para o malandro avistar a sua mulher e ver se marcavam um encontro, como aliás já tinha sucedido com toda a certeza. A mulher andava metida com este vizinho do lado, que tanta genica tinha que até subia a escadas só para ver a amante.O legítimo esposo não esteve de modas. Foi lá dentro, a casa, e voltou com uma caçadeira. Apontou-a e o curioso lá caiu da escada. Felizmente, sofreu apenas ferimentos ligeiros.O meu amigo José, advogado experiente, recebeu certa vez um cliente que nem sabia muito bem o que pretendia. Queixava-se da infidelidade da mulher. Se queria o divórcio ou não, isso não era claro. Fundamentalmente, desejava desabafar.O causídico foi encaminhando a conversa como fazem os psicólogos. Ia-o deixando falar. Interrompia quando ele se desviava do tema central. Colocava questões por forma ao cliente, por si próprio, chegar às conclusões mais razoáveis.Um pouco à moda do ensino programado dos anos cinquenta.O homem lá foi relatando que a mulher tinha uns encontros amorosos quase todos os dias. “Onde?”, perguntou o advogado. Era mesmo lá em casa. Que descaramento…E suspeitaria o cônjuge traído de alguém? Com certeza que sim. Quase não tinha dúvidas. Era seguramente o filho de ambos que andava metido com a mãe.Era chegada a altura de induzir no cliente a convicção de que aquilo talvez fosse fruto da sua imaginação. Nunca se poderia dizer isto a ele. Entraria em negação e nunca aceitaria essa opinião, contrária a tudo o que os seus olhos viam.Teria o senhor ficado afectado por algum problema de saúde? Realmente, com a idade, ele perdera o vigor de outros tempos. Isso tinha-o deixado triste e preocupado? É óbvio que sim. Afinal, qual é o homem que não reage desse modo?Em vez de um advogado, não seria preferível consultar um médico para discutir com ele se estas preocupações não estarão a fazê-lo afastar-se da realidade? Efectivamente, era.Por mim, eu também tenho uma convicção. Foi assim que se deu a tragédia de São Xisto, em São João da Pesqueira.* Juiz(hjfraguas@hotmail.com)

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