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A homenagem que tardava

A homenagem que tardava

Maria de Lourdes Pintasilgo recordada em Abrantes por muitos admiradores

A morte de Maria de Lourdes Pintasilgo passou mais ou menos despercebida pelas duas entidades que mais serviu: o Estado e a Igreja. Por isso, um grupo de personalidades da vida pública decidiu homenageá-la em Abrantes, cidade onde nasceu.

Edição de 26.01.2005 | Sociedade
Personalidades do panorama político, social e cultural do país estiveram presentes no cine-teatro São Pedro, em Abrantes, no sábado, para recordar Maria de Lourdes Pintasilgo. Uma homenagem que tardava, segundo a opinião unânime dos participantes, uma vez que nem o Estado português nem a Igreja o fizeram.O dedo na ferida foi colocado por Luís Moita, vice-reitor da Universidade Autónoma, que enalteceu também a cerimónia promovida pela Câmara de Abrantes. “Fazia falta esta homenagem. A morte de Maria de Lourdes Pintasilgo passou mais ou menos despercebida pelas duas entidades que mais serviu: o Estado português e a Igreja”, frisou o vice-reitor, para concluir: “Não houve nenhum bispo presente no seu funeral que merecia honras de Estado e não teve”.Maria de Lourdes Pintasilgo nasceu em Abrantes em 18 de Janeiro de 1930 e faleceu em Julho de 2004. Foi um marco na vida nacional e fica para a história como a primeira mulher a desempenhar o cargo de primeiro-ministro em Portugal. Na homenagem promovida pela Câmara Municipal de Abrantes foram muitos os intervenientes que passaram pelo palco do cine-teatro São Pedro e todos eles recordaram a homenageada como um exemplo pela sua inteligência, capacidade de análise e empenho nas grandes causas.António Victorino d’Almeida classificou-a como uma “mulher emocionantemente bonita” e por isso apoiou incondicionalmente a candidatura de Lourdes Pintasilgo à Presidência da República, em 1986, quando concorreu como independente. Foi também a primeira mulher a fazê-lo. Tida como uma mulher de ideias firmes, de discurso sempre positivo e grande defensora dos mais desprotegidos, Lourdes Pintasilgo nunca escondeu o seu lado feminista, mostrando, quer como profissional, quer como política, que as mulheres podem desempenhar os mesmo cargos que os homens.Formou-se em engenharia química industrial pelo Instituto Superior Técnico, em 1953, numa época em que era raro as mulheres pisarem a faculdade, quanto mais licenciarem-se em cursos técnicos. Do seu curso fizeram parte 250 homens e três mulheres. O seu papel na igreja foi também desenvolvido com afinco. Em 1957, após uma visita aos Estados Unidos, fundou com Teresa Santa Clara Gomes o movimento internacional GRAAL, em Portugal. Na homenagem em Abrantes, falaram três elementos deste movimento de mulheres cristãs fundado na Holanda em 1921. A faceta política desta cidadã abrantina foi descrita e recordada por Maria José Nogueira Pinto, Jorge Lacão e Mário Soares. “Tínhamos grande amizade, apesar de virmos de sítios opostos. Maria de Lourdes era católica, eu agnóstico. Ela fez parte da Câmara Corporativa eu era mais vermelhusco. Era uma mulher de grande visão, de convicções profundas”, disse o ex-Presidente da República.Pelo meio das intervenções os actores Lia Gama e João Mota leram poemas de Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Teresa Horta, Sebastião da Gama e Hélia Correia. No alinhamento da homenagem os serviços culturais da Câmara de Abrantes incluíram a música de Zeca Afonso e a interpretação ao vivo pelo Orfeão de Abrantes de dois temas de Fernando Lopes-Graça. Francisco Fanhais cantou no palco do cine-teatro três das suas canções.A biografia e fotografias de Maria de Lourdes Pintasilgo foram editadas pela autarquia numa brochura intitulada “Memóriaviva”. Foi sob esta designação que decorreram as diversas actividades promovidas naquela cidade, desde 18 de Janeiro, entre as quais o descerramento de uma lápide na casa onde nasceu Lourdes Pintasilgo e a atribuição do seu nome a uma das ruas da cidade.Margarida Trincão
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