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Carris manchados de sangue em Alhandra

Carris manchados de sangue em Alhandra

Três pessoas morreram em dois meses

Atravessar a passagem de nível junto da estação de Alhandra é desafiar a morte. Nos últimos dois meses, três pessoas foram desfeitas por comboios rápidos que passaram sem qualquer aviso. A Refer garantiu uma intervenção imediata e a construção da passagem superior ainda este ano.

Edição de 02.02.2005 | Sociedade
Uma mulher de 67 anos foi a terceira vítima mortal colhida por um comboio rápido na passagem de nível junto da estação de Alhandra, no concelho de Vila Franca de Xira desde 7 de Dezembro. A travessia utilizada por centenas de pessoas não tem qualquer aviso sonoro ou visual, não tem barreiras que impeçam o acesso directo, e a visibilidade de quem vem do lado da EN10 é reduzida. Há uma curva a 100 metros que impede ver a aproximação dos comboios que vêem de Lisboa e circulam a mais de 100 km/h local Na quinta-feira, cerca das 19h30, Maria Albertina Pereira regressava a casa depois de mais uma sessão de hidroginástica na piscina de Alhandra. A sexagenária, residente em Vila Franca, foi apanhada pelo comboio que fazia a ligação entre Lisboa e a Beira Alta. “Foi horrível. Não há palavras”, contou um socorrista, enquanto via as imagens da recolha do cadáver. O corpo de Maria Albertina foi projectado a mais de 200 metros e ficou desfeito em pedaços. “Os carris ainda estão sujos de sangue”, disse João Alves apontando para o local.Na estação de Alhandra, os passageiros e os utentes da passagem de nível revoltam-se porque este foi o terceiro acidente mortal em menos de dois meses. Um homem de 56 anos morreu no local no dia 28 de Dezembro e, três semanas antes, o corpo de uma mulher de 78 anos também foi destruído por um comboio alfa-pendular que circulava a mais de 100 km/hora.A nossa reportagem passou algumas horas na estação e concluiu que não há mais vítimas por acaso. Quem atravessa a linha arrisca em cada passagem. Apesar disso, os cidadãos com maior dificuldade de locomoção, as crianças e os idosos continuam a arriscar porque a passagem superior existente junto da estação não é alternativa. A estrutura não está preparada para cadeiras de rodas, carrinhos de bebé ou para pessoas com maior dificuldade e exige algum esforço para percorrer tão curta distância. “Eu e o pessoal da minha camada não conseguimos usar aquelas escadas”, lamenta Francisco Ferreira. Este operário reformado da Cimpor tem 80 anos e passa grande parte do seu tempo livre na estação. “Tenho visto coisas incríveis. Não sei como não morre mais gente”, afirma.Enquanto a conversa decorre, uma rapariga atravessa a linha montada numa bicicleta e logo a seguir uma idosa passa a puxar o carrinho das compras pela mão. “Está a ver, o que eu digo”, aponta Francisco Ferreira.A indignação da população de Alhandra aumenta porque sabe que a solução para minimizar o risco é barata. “A colocação de uma barreira que impeça o acesso directo à linha e de avisos sonoros e visuais poderiam ser intervenções rápidas, enquanto se estuda a hipótese duma passagem desnivelada”, defende o presidente da Junta de Freguesia, Jorge Ferreira que está cansado de manifestar a sua indignação. “Passo ali há 45 anos e estou a ver quando é que calha a minha vez. Não se pode esperar pela quadriplicação para tomar medidas. Nestes anos já ali morreram dezenas de pessoas”, lamentou João Padinha.O perigo na estação de Alhandra não se resume à passagem de nível. A aparelhagem sonora não se cansa de alertar para a distância significativa entre a plataforma e as portas dos comboios. Os passageiros podem ficar entalados e ser esmagados pelo comboio. Nelson Silva Lopes
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