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Socorro! Ajudem-me, por favor, que eu vou casar!

Vou casar em Agosto. Rectifico: eu queria casar em Agosto, mas já nem sei se vai haver casamento. Tudo começou há sete meses à beira-mar, na Nazaré, ao pôr do sol, quando pedi à Eloísa para casar comigo. Ela é a mulher da minha vida. O meu grande amor. Estou apaixonado até à raiz dos cabelos mas confesso, devia estar bêbado quando me meti nesta embrulhada do casamento.

Edição de 10.02.2005 | ESPECIAL CASAMENTOS
Quando ela me abraçou e beijou, depois do sim, lembro-me que me apertou o escaldão das costas com tanta força que eu só não gritei porque tinha os lábios dela colados ao meus. Eu era um ingénuo. Pensei que estava tudo resolvido. Um anel de brilhantes, um rosé fresquinho ao almoço, um lugar romântico e um beijo ao cair da tarde como nos filmes. Nada de mais errado. Tinha acabado de dar o primeiro passo para uma barafunda inimaginável. No dia seguinte, ainda eu nem tinha acordado já ela me estava a telefonar para começarmos a tratar “das coisas”. Na altura não percebi. Estava ensonado, estava em perfeito estado de ignorância. Disse um disparate qualquer e foi a nossa primeira discussão. Ao telefone. Raios! Agora já percebi a pressa dela. Eu era um totó na matéria. Pensava que bastava telefonar a um restaurante simpático com dois dias de antecedência; comprar um fatinho à maneira e uma alianças baris; pedir ao padre Zé Luís para nos casar. E mandar umas mensagens de telemóvel à rapaziada amiga a convidá-la para o casório, pois claro. Ah! Ah! Ah! Até me estou a rir do parvo que eu era.Sete meses. Já lá vão sete meses e ainda não tenho o restaurante assegurado. São trezentos convidados. O Padre Zé Luís é um bacano mas não nos pode casar e ainda não conseguimos encontrar outro que tenha umas horas livres no dia 20, Sábado. Se fosse dia 21 tínhamos padre mas não havia restaurante. Se fosse a 19 tínhamos restaurante mas não havia padre. Se fosse a 22 tínhamos padre e restaurante mas os padrinhos não podiam estar porque têm que estar na Suíça nesse mesmo dia. Aaarrrggggg!!!!!A Eloísa ainda não decidiu nada sobre as alianças. Já viu duzentos modelos diferentes e nenhum lhe agrada. A mim parecem-me todas iguais mas eu já nem abro a boca. Já se fartou de chorar porque não consegue encontrar o vestido com que sonhou quando tinha doze anos. Quando lhe digo que o importante é amarmo-nos só não me atira pela janela porque temos o casamento marcado e ela não quer que eu vá de muletas. Mas manda-me uns olhares que eu não lhe conhecia.Cá em casa também anda tudo doido. A minha mãe discute com o meu pai todos os dias. Porque não convidarem este ou aquele, porque o meu velho acha que eu devia ir de gravata em vez de laço, porque o vestido da minha irmã é demasiado ousado para uma dama de honor, porque os fulanos dos restaurantes são todos iguais. Depois há os cortes na casaca dos pais da Eloísa. São uns desmancha prazeres, não têm bom gosto...Quem nunca casou não sabe o que é escolher convites. Há milhões de modelos diferentes. Tardes inteiras a ver catálogos, dizeres, preços. E um homem não pode dizer nada. Para mim qualquer um servia, para ela eu só demonstrava desinteresse. Mais discussões e arrufos. Quando eu fingia entusiasmar-me com um que ela escolhia ela mudava logo de opinião, acusava-me de ter mau gosto. Nunca a vi assim. Nem lhe posso tocar que ela fica logo eriçada. Anda com os nervos à flor da pele. À beira de um esgotamento.Fotografias e DVD, pois claro. Outra confusão. Luvas, bouquet, chapéu?? Cartola ??!!! Carro, limousine ou Coche?? Cavalos brancos os pretos?? E as lembranças para os convidados!!! E o penteado da noiva??!! Os meus amigos dizem-me para estar calmo que tudo se resolve. Eu sei lá se se resolve. Ainda ontem fui à agência por causa da lua de mel. E tal e coisa, que os destinos assim e assado, que as reservas não é verdade? E as promoções, que realmente as promoções. A Eloísa arrebanhou duas mochilas de propaganda na Bolsa de Turismo. Na ronda pelas agências outras duas. Tem lá mais papel que os armazéns da Renova. De cada vez que abre um prospecto tem uma ideia diferente. Eu sempre sonhei com uma lua de mel no deserto. Mas alguém liga alguma coisa aos meus sonhos. “No deserto, que horror! Deves estar a brincar!!! Só podes estar a brincar!!!”. Perante as exclamações assassinas da Eloísa nem fui capaz de dizer nada. Meti o rabo entre as pernas e fui dar uma curva. “Amor é sacrifício”, mentalizei-me eu. Há mais coisas a resolver. Muitas mais, acreditem. E nem quero pensar no dinheiro que isto tudo vai custar. Eu sou um romântico. Para mim é o amor e uma cabana. Até podíamos atirar com uma bilha de barro ao chão como fazem em alguns sítios e já estávamos casados. O que conta é o amor, mas vá lá alguém dizer isso à Eloísa, ou à minha mãe, ou à minha futura sogra, ou à minha irmã e às minhas cunhadas. Socorro!!! Ajudem-me, por favor, que eu vou casar!Rui Ricardo

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