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A Recepção

Aurélio Lopes
Edição de 10.02.2005 | Opinião
Desde que teve notícia da visita do líder, o “Sr. Presidente” nunca mais teve descanso! Afinal, é uma honra para o Município receber em pessoa uma personalidade com a dimensão política do Secretário Geral do Partido e, o “Sr. Presidente”, tem esperanças fundadas que ele se demore aí algumas horas, tempo, pelo menos, para uma visita ao recentemente remodelado Mercado Municipal, para o previsto banho de multidão. Quem sabe, uma visitinha relâmpago aos velhinhos do Centro de Dia, ou até mesmo uma breve inauguração da Segunda Fase da Ala Este da nova Escola Secundária.É a oportunidade esperada de, através dos média nacionais, promover o Concelho e, naturalmente, promover-se um pouco a si próprio. Afinal, ninguém lhe pode levar a mal por não gostar de morrer sem experimentar outras funções políticas. Governativas, porque não?!Tudo depende da recepção nos Paços do Concelho, onde vai estar toda a “entourage” do Partido e, que o “Sr. Presidente” espera, venha a constituir um marco, na presente campanha eleitoral.Por ordem presidencial todos os vereadores da maioria irão estar presentes, bem como os deputados municipais, presidentes de junta e respectivas acessorias. “Espíritos Santos de orelha” bichanaram aliás nos últimos dias, aos ouvidos de cada um, a conveniência pessoal de responder à chamada.A Banda da Sociedade Filarmónica ocupa já o seu lugar na Praça. O Grupo de Danças e Cantares “Os Malmequeres da Ribeira”, espera ordeiramente pelo seu momento.Finalmente, o “Sr, Presidente” saí do gabinete e dirige-se à porta principal do edifício municipal. Sabe de fonte segura que a caravana do Secretário Geral não tardará a chegar.O séquito presidencial planta-se assim à entrada do edifício, dando um último retoque no vestuário protocolar, esforçando-se por assumir um ar circunspecto, intercalado de comentários de circunstância sobre as prestigiantes circunstâncias do momento.Os eternos candidatos a “boys” vão ocupando as posições mais favoráveis às prováveis objectivas dos jornalistas que acompanham a caravana. O “Sr. Presidente”, contudo, não permite grandes ultrapassagens, chamando a si os “delfins” do momento, a pretexto de um amigável cumprimento pessoal, acompanhado de uma tirada pretensamente humorística mais ou menos retórica.O tempo vai passando. O frio agreste que se faz sentir, começa a fazer notar os seus efeitos!O “Sr. Presidente” bate o pé para aquecer, dando origem a diversos outros “sapateados”, abotoar de casacos e ajeitar de cachecóis e lenços de pescoço.A aproximação de um mercedes negro leva o “Tolas”, acessor para todo o serviço, estrategicamente colocado como sentinela no fim do quarteirão, a desencadear um falso alarme, gerador imediato de um frenesim de compostura e pose formal, não sem que, aqui e ali, se revele alguma tensão, decorrente de disfarçados, mas algo abusivos, posicionamentos estratégicos.Resposta que é a normalidade, surgem, aqui e ali, alguns risinhos forçados, à mistura com comentários irónicos respeitantes ao “golpe de vista” do “Tolas” e à sua conhecida condição de antigo árbitro do Inatel.O frio aperta. O “Sr. Presidente” exaspera-se. Da caravana, nem novas nem mandadas! Hesita se há-de regressar ao seu gabinete. Sempre está lá bem mais quente, pensa com os seus botões. Desiste, contudo, ao olhar para o metediço do jornalista da “Gazeta da Vila” que, uns metros mais à frente, esboça já um leve e sardónico sorriso!Finalmente, um automóvel com cariz de carro oficial, surge ao fundo da praça. Aproxima-se rapidamente e pára em frente à pequena multidão. Os seus vidros fumados não permitem ver os ocupantes.Nesta altura, conforme combinado, a Filarmónica dá início aos primeiros acordes da “Marcha Triunfal”!O momento é de suspense e expectativa! De euforia mal contida!A porta abre-se após o que parece uma eternidade. Dela sai, célere, o Dr. Simão, porta-voz do partido. A música recrudesce de intensidade!Contudo, rapidamente se fecha de novo! Qualquer coisa, pelos vistos, corre mal! O ar comprometido do Dr. Simão não escapa a ninguém! Depois de um breve olhar pelos circunstantes, dirige-se taciturno ao “Sr. Presidente”.O dialogo é curto e tenso! Incapaz de se conter; o “Sr. Presidente” solta uma imprecação!Os que o rodeiam percebem agora (mais pela forma, que pelo conteúdo) a razão da sua irritação: o Secretário Geral, atrasado no circuito da campanha, resolveu, à ultima da hora, não passar por Vila das Naves!Intempestivamente o “Sr. Presidente” regressa ao edifício da Câmara. Acessoria e vereação seguem-no diligentemente, entre perplexos e solidários com o desagrado presidencial!E, enquanto a mente fervilhante do “Sr. Presidente”, pondera já vantagens e desvantagens de uma transferência partidária, os acordes da “Marcha Triunfal”, que lentamente se vão diluindo, despertam, agora, uma estranha sensação de ridículo!

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