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Quando as quadras tinham que ser aprovadas pela GNR

Dois veteranos do “enterro do galo” contam histórias de outros tempos

Antes do 25 de Abril de 1974 os organizadores do Enterro do Galo, na Chamusca, tinham que ir ao posto da GNR mostrar as quadras de maldizer que iriam ser recitadas Quarta-feira de cinzas nos três clubes da terra. Era carnaval mas naquele tempo a máxima do “ninguém leva a mal” nem sempre funcionava. A autoridade zelava pela moral e bons costumes.

Edição de 16.02.2005 | Cultura e Lazer
Manuel José Aranha e Manuel João Laurentino, dois dinamizadores da “celebração” nas últimas décadas, dizem que a censura não era feroz. Os comandantes da Guarda limitavam-se a suavizar algumas quadras mais atrevidas. O enterro do galo marca o fim do carnaval. O testamento do defunto animal é uma sátira ao quotidiano da vila. É a coscuvilhice misturada com crítica política e social. Tudo temperado com subentendidos, piscadelas de olho à memória colectiva e bom humor. “Era uma, duas cabras / difíceis de contentar / entre as duas um cabrito / que se fartou de suar”. A quadra tem umas décadas valentes. Foi feita por Manuel José Aranha. A inspiração veio do falatório local. Segundo as calhandreiras, duas empregadas de uma casa comercial, casadas, tinham um arranjinho a três com o patrão.Houve gargalhada geral quando o “padre” disse os versos mas no dia seguinte o autor foi chamado à GNR porque os maridos das senhoras tinham apresentado queixa. A suar como o “cabrito” da história, Manuel José Aranha, lá conseguiu dar a volta ao assunto. A quadra tinha a ver com gado. Cabras e cabritos verdadeiros. Safou-se devido ao sentido de humor do comandante que deveria estar a par da situação. Na Quarta-feira de cinzas havia bailes nas três colectividades da Chamusca: Grupo Dramático Musical, Sport Chamusca e Benfica e Sporting Clube Chamusquense. Na altura em que Manuel José Aranha começou a participar o enterro saía do Benfica e parava nas outras colectividades. Em cada paragem era lido o testamento. O cortejo percorria as ruas. Padre, Sacristão, o morto numa improvisada padiola e as carpideiras tapadas com lençóis brancos. Agora o enterro do galo é feito na sede da União da Chamusca e não sai à rua.O cortejo seguia aos zigue-zagues porque a noite era de excessos a todos os níveis. A começar pelos excessos etílicos. Manuel João Laurentino e Manuel José Aranha lembram a forma como um amigo, chamado Caseca, se prestava a fazer o papel de galináceo defunto. “Lá ia ele deitado numa escada de madeira que fazia de caixão e os que o levavam, de vez em quando, levantavam-no bem alto e deixavam-no cair”. Não era por acaso que na altura se popularizou a expressão, “Até o morto chia”. Rirmo-nos de nós próprios é um princípio saudável que as gerações que têm mantido a tradição não esquecem. Padre e sacristão, autores de muitas das quadras, lembram como gozavam com eles próprios. Manuel José Aranha, é de baixa estatura, Manuel João Laurentino é bastante alto. A meio da função lá vinha a auto-flagelação “Meus senhores e minhas senhoras / vejam bem como as coisas são / é um padre tão pequeno / e é tão grande o sacristão”. A brincadeira era seguida de perto pelo povo, mas havia gente de outras classes sociais que não dispensava a leitura do historial satírico anual. Manuel João Laurentino, o grande “padre” dos tempos modernos lembra, por exemplo, que a poetisa Maria Manuel Cid, já falecida, não ia assistir à leitura do testamento mas pedia sempre uma cópia do documento para ler e guardar”.A tradição do enterro do galo está bem viva na Chamusca. Os mais novos são menos organizados mas os mais velhos acham que com o passar dos anos vão melhorar. No estilo e na função. Sobre as queixas de alguns espectadores relativas à qualidade das quadras e da introdução ao testamento Manuel João Laurentino penitencia-se: “Apesar de me ter afastado da tarefa de padre em 2001, nunca deixei de acompanhar a malta, só este ano me ausentei por completo. Fiz mal e garanto que vou voltar porque sinto que é preciso alguém para passar alguma experiência ao grupo, que este ano era muito jovem”.Laurentino diz que para o ano não vai abusar dos copos durante o jogo do quartão, na tarde de Quarta-feira de cinzas - outra tradição que consiste na saída de um grupo de homens à rua que vai trocando um cântaro de barro entre si, pagando o que deixar parti-lo uma rodada na taberna ou café mais próximo - para à estar lúcido e poder ajudar no enterro. Manuel José Aranha garante que se o contactarem com tempo dará uma mãozinha para fazer a introdução e ajeitar alguma quadra menos conseguida.Algumas das quadras do Enterro do Galo 2005O carnaval está doenteE já não há bailaricosA música é só tum-tum-tumFicamos com a cabeça em fanicosA direcção da casa do povo Anda por aí a pedincharMandam as quotas para casaMas ninguém as vai pagarMas que grande trapalhadaCom os bois da AscensãoSaíram com lume no cuMas depois caíram pró chãoCom tanta gente na ruaÉ tamanha a confusãoNinguém repara nos toirosNa entrada da AscençãoCampinos do tempo modernoQue nunca usaram pampilhoVêm com a sirene a apitarE as luzes no tejadilhoNa entrada da Ascenção Houve um grande acidenteO jipe da GNR Colheu o carro do presidenteForam murros e facadas Na semana da AscençãoCoitado do nosso forcadoCaíram-lhe os dentes no chãoTriste relógio municipalNinguém lhe passa cartãoSerá que só vai trabalharEm quinta feira de AscençãoComias esta e aquelaAndavas feito um garanhãoMas no teu carro só vi gajosOh meu grande trapalhão O rouxinol cantorGravou um CD ao vivoSe quis que alguém o ouvisseEste teve que ser oferecidoNo clube desta terra Os jogadores não prestamTemos que ir jogar para o InatelMas que raio de merda estaDar emprego à esposa do sócioAté é coisa que se aceiteMas ela percebe daquiloComo eu de lagares de azeiteGrande presidente CarrinhoQue há vinte anos nos conduzA dívida já é tão grandeQue nos querem cortar a luzÉramos a capital do lixoToda a merda cá vinha pararAgora vêem lixos os perigososE ninguém se quer importarHá cafés por todo o lado O negócio deve darMas é sempre o mesmo fadoAbrem para depois fecharO amigo da autoridadeJulgava-se com isençãoMas acabou apanhadoQuando soprou no balãoO rapazola mania de campeãoDepois de noite mal dormidaAtirou-se à querida sograDeixou-lhe os beiços em feridaE agora vão para casa Não pensem que falamos de vocêsPorque isso fazemos todos os dias Semana a semana e mês a mêsDespeço-me com amizade Deferência e consideraçãoPró ano haverá mais Enterro do galo no União

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