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Bombeiros de cerimónia

Bombeiros de cerimónia

Nunca apagaram fogos, mas usam uniformes iguais aos dos bombeiros

As corporações de bombeiros começam a ter nos seus quadros de especialistas e auxiliares padres, juristas, médicos. E para que estes profissionais se sintam integrados, as corporações oferecem-lhe as fardas que usam nos dias de festa. São os bombeiros de cerimónia.

Edição de 16.02.2005 | Sociedade
O padre da paróquia de Tomar, João Borga, foi o primeiro da diocese de Santarém a usar farda de bombeiro. Há dez anos o comandante da corporação chamou-o ao quartel e comunicou-lhe que estava ali para tirar medidas para a farda, já que era o capelão da corporação. O pároco nunca combateu um fogo florestal ou socorreu vítimas de acidente, mas por usar o uniforme sente-se como fazendo parte da instituição. Apesar de estar previsto no regulamento dos bombeiros, o uso do fardamento por parte dos elementos que fazem parte do quadro de especialistas e auxiliares só tem vindo a ser aplicado de há pouco tempo a esta parte. Padres, juristas, mecânicos, psicólogos e médicos vão começando a entrar para as corporações, que fazem gáudio em lhes oferecer o uniforme. João Borga já uma vez conseguiu apagar um fogo na cozinha de uma vizinha com um extintor. Mas do mesmo não se pode gabar Ana Gonçalves, jurista dos Voluntários de Benavente. Entrou para o quadro de especialistas a meio do ano passado. Já teve uma formação geral sobre como funcionam os bombeiros, mas não tem preparação para apagar fogos ou socorrer acidentados. “Nunca tinha vestido um uniforme na vida. É um pró-forma. É um meio de nos identificarmos e sermos reconhecidos como pertencendo a uma corporação”, diz Ana Gonçalves, que ainda só envergou o uniforme três vezes, em cerimónias oficiais. Da mesma opinião é o pároco do Entroncamento e capelão dos bombeiros, há um ano, António Vicente. Quando vestiu a farda pela primeira vez foi uma risota, lembra. Foi no aniversário da corporação e nesse dia tinha também uma missa. Por isso foi fazer a celebração com a farda de bombeiros. “Os miúdos da catequese, quando me viram, fizeram uma festa”, recorda, acrescentando que os paroquianos gostam de o ver fardado. Nos Bombeiros de Vila Franca já estão no quadro de especialistas uma enfermeira e um mecânico. O comandante Pedro Lopes sublinha no entanto que quando houver um padre, um contabilista ou alguém de outra área que preste serviço aos bombeiros e entre para o quadro de especialistas pode vir a usar farda. Esta, apesar de ser a mesma de um bombeiro, tem alguns pormenores que distingue a função desse elemento. Explica Pedro Lopes que os bombeiros têm platinas pretas nos ombros, com divisas amarelas. Os mecânicos da corporação já têm platinas azuis e o médico ou enfermeiro usam-nas cor de vinho tinto. E têm depois símbolos que fazem referências à sua categoria e profissão. Uma farda de gala custa cerca de 100 euros. E se incluir casacos de protecção e fato de trabalho pode ascender a dois mil euros. No Entroncamento, as fardas de gala do padre Vicente e da médica Maria Adelaide Alves Dias foram oferecidas pela junta de freguesia da cidade. A clínica começou a colaborar com a corporação há menos de um ano, fazendo um trabalho de retaguarda, como a vacinação dos bombeiros. Maria Adelaide Alves Dias costuma dizer que usa fardas desde que entrou para a escola. Primeiro foi o bibe. Depois na faculdade começou a usar a bata branca dos médicos, que se mantém até hoje. Com a farda dos bombeiros diz sentir-se bem, independentemente de saber que não é uma operacional. Mas, ressalva, o uniforme “faz-nos sentir integrados”. Considerando que o fardamento dos bombeiros “é muito bonito”, a médica do Entroncamento reconhece que algumas pessoas de nível económico mais elevado olham para os bombeiros como algo associado às classes baixas. E admite que já reparou em algumas pessoas que torcem o nariz quando a vêem fardada de azul. É nessas situações que, diz, se convence ainda mais que “usar o uniforme é uma honra”.
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