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Celeiros da droga vão ser fechados

Celeiros da droga vão ser fechados

Droga, sexo e tráfico junto de habitações em Samora Correia

Dois antigos celeiros agrícolas foram transformados em salas de chuto em Samora Correia. No chão há centenas de kits, limões, preservativos e pingos de sangue. Os moradores dos prédios vizinhos e os pais das crianças que ali passam temem pela sua saúde e segurança. A Câmara de Benavente anunciou que vai vedar o acesso.

Edição de 16.02.2005 | Sociedade
Dezenas de kits com material para injectar droga, limões, caricas, garrafas de água, rolos de prata, preservativos e pingos de sangue. Tudo isto se encontra nos montes de resíduos perigosos que estão à mercê de qualquer criança em dois celeiros utilizados por toxicodependentes em Samora Correia.O espaço que noutros tempos guardou os cereais da empresa agrícola Lopes & Lima, e onde permanece um secador, não tem portões e há vários meses que foi ocupado por consumidores e pequenos traficantes de droga. O pior é que os celeiros ficam junto de um caminho utilizado por dezenas de jovens no caminho entre a casa e a escola e é apetecido para alguns namoricos como constatou o MIRANTE numa das nossas visitas. Um casal com cerca de 15 anos estava a namorar encostado a uma parede. A cerca de dois metros, um colchão roto e a apodrecer. Ali perto, uma mesa com duas embalagens de kits, dois meios limões e recipientes de um soro utilizado na feitura do caldo. Encostado a outra parede há um carro que era propriedade de um dos herdeiros dos celeiros e foi incendiado depois de retiradas as peças mais valiosas.Os vizinhos dizem que alguns dos frequentadores daquele local são portadores do vírus da Sida e de outras doenças infecto-contagiosas e o risco de contágio é iminente. “Vivo com o coração nas mãos porque o meu filho todos os dias faz este caminho e tenho medo”, conta uma mãe que pede anonimato com receio de represálias.O mesmo receio que mostram os vizinhos e os proprietários dos terrenos próximos. Nas últimas semanas já desapareceram dezenas de peças de criação, couves, laranjas e até ferramentas. Tudo serve para fazer dinheiro para a próxima dose. “Uma noite tive de disparar uns tiros para o ar porque eles gritavam tanto que não me deixavam dormir”, confessou um proprietário de um terreno próximo.Os moradores do prédio em frente assistem a tudo sem sair de casa. “Já informei a GNR várias vezes, eles aparecem. Mas no dia seguinte volta tudo ao mesmo”, explicou um dos vizinhos da “sala de chuto” improvisada. Esta situação já foi denunciada por várias vezes nas reuniões da junta e assembleia de freguesia e junto da Câmara Municipal de Benavente. “Mas de nada tem valido”, queixam-se os denunciantes. “Se a câmara der os tijolos e o cimento eu vou lá e faço as paredes nos portões”, afirmou um dos vizinhos. Proprietários impedidos de actuarOs antigos celeiros da empresa Lopes & Lima são património de um conjunto de herdeiros e segundo apurámos destinam-se à venda. Há mesmo um projecto urbanístico para aquela zona. Contactado por O MIRANTE, João Bernardo, um dos herdeiros explicou que os portões não foram recolocados porque os proprietários estão impedidos de actuar. Em causa está uma acção judicial interposta pelos herdeiros contra o empresário que construiu os prédios em frente dos celeiros. Os proprietários acusam o construtor de ter derrubado os portões e de ter usado abusivamente as instalações. Há mesmo denúncia do desaparecimento de vários objectos que se destinavam ao futuro museu agrícola da vila e que estavam guardados no local. Segundo João Bernardo, a Câmara Municipal de Benavente foi informada do sucedido e foi pedido que não fosse emitida a licença de utilização das fracções antes do empreiteiro repor a situação mas isso não foi feito.Os herdeiros não se opõem a que a câmara utilize a possibilidade que tem de vedar o acesso aos celeiros com base na ameaça que existe da saúde pública desde que isso não interfira com a acção que decorre em tribunal. Contactado por O MIRANTE, o presidente da Câmara Municipal de Benavente confirmou as reclamações dos vizinhos e disse estar empenhado em resolver o problema. “É uma situação muito grave que ameaça a saúde pública”, disse. António Ganhão marcou mesmo uma reunião com os proprietários para esta sexta-feira, 18 de Fevereiro. O autarca explicou que caso haja autorização dos herdeiros o acesso será vedado na próxima semana. “É uma questão delicada porque há uma acção em tribunal, mas penso que o juiz perceberá a razão da nossa intervenção”, disse.Nelson Silva LopesPresidente da Câmara de Benavente reconhece ameaça para a saúde públicaGanhão é a favor das salas de chutoDepois de vedado o acesso aos celeiros, os toxicodependentes vão procurar outro local para se injectarem e para passarem a noite e os traficantes vão atrás deles. Tem sido sempre assim ao longo dos últimos anos e espaços abandonados não faltam no concelho de Benavente. Confrontado por O MIRANTE sobre uma solução mais alargada para o problema, o presidente da câmara disse sentir-se impotente para resolver o problema da toxicodependência e dos riscos que gera à sua volta. “Já começo a estar de acordo com as salas de chuto. É preciso encontrar locais onde os toxicodependentes possam satisfazer as suas necessidades com condições higiénicas”, disse. “Temos de acabar com esta situação degradante que é um perigo para a saúde pública”, acrescentou. O autarca confirmou que “com frequência os funcionários da autarquia encontram seringas utilizadas em locais públicos e acessíveis às crianças”.Ainda no dia 7 de Fevereiro foi suspenso um dos programas de intervenção na área da prevenção das toxicodependências no concelho de Benavente, que tinha obtido bons resultados junto de alguns jovens, por falta de verbas do Instituto da Droga e da Toxicodependência.
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