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Uma festa no regresso da guerra

Uma festa no regresso da guerra

Soldado da GNR que esteve no Iraque cumpriu a promessa no Porto Alto

O único soldado da GNR do distrito de Santarém, que participou nas missões em Nassiriah organizou uma festa no Porto Alto onde estiveram alguns camaradas de armas. Uma oportunidade para recordar a estada em terras iraquianas.

Edição de 23.02.2005 | Sociedade
“Sempre que via notícias sobre o Iraque na televisão chorava bastante”, confessa Laurinda Oliveira, residente no Porto Alto (Benavente) e mãe do único soldado da GNR oriundo do distrito de Santarém que integrou o contingente nacional que participou nas missões em Nassiriah.E o caso não era para menos. A equipa onde o seu filho, Élio Oliveira, se integrava viu a morte de frente por várias vezes. Gonçalo Garrito, da Póvoa de Santa Iria, que participou na festa promovida sábado por Élio no Porto Alto, exemplifica com um ataque que a sua viatura sofreu: iam em coluna militar, em Nassiriah, quando um morteiro, programado por telemóvel, rebentou a um metro dele. A explosão feriu um colega seu da GNR.Esta e outras histórias foram recordadas no sábado, no Porto Alto. Élio Oliveira prometeu, antes de partir para o Iraque, que se tudo corresse bem faria uma festa na terra que o viu partir. E foi o que aconteceu. Além de familiares e amigos compareceram à festa quatro dos elementos da sua equipa. Uma vaca no espeto, muitos litros de vinho ribatejano, música e poesia fizeram o regalo de quase uma centena de pessoas. Embora não fosse um dia para recordar as tristezas vistas naquele país, Élio Oliveira revelou que encontrou um país pior do que pensava. “O perigo surgia ao virar da esquina”. E o mais chocante era as crianças que não largavam as viaturas da GNR. Choravam para que os soldados portugueses lhes dessem comida e água. Élio Oliveira, 24 anos, natural de Samora Correia, é um entusiasta destas missões humanitárias. Aliás, quando lhe perguntámos se participaria noutra missão, respondeu imediatamente: “Estou pronto a partir já amanhã para qualquer país do mundo”.O jovem fez o curso da GNR, depois optou por integrar o Batalhão Operacional da Guarda Nacional Republicana (conhecida por policia de choque) e finalmente foi para o Iraque. O curso de Comunicação que tirou na Escola Profissional de Salvaterra de Magos também lhe tem sido útil. Conta que “mesmo na guerra, ser-se bom comunicador é fundamental”. Quando se cruzava com iraquianos, e este percebiam que se tratava de um português, “Figo” era a primeira palavra que ouvia. Mas muitos recordaram também a vitória que o Iraque obteve contra Portugal nos Jogos Olímpicos de 2004. Além das saudades da família e da namorada, “o pior foi comer massa e esparguete de manhã à noite”. É que os portugueses estiveram na base de Tallil, sob comando dos italianos. Por irónico que possa parecer, quando entrou no avião para regressar a Portugal, foi surpreendido por mais um jantar de esparguete servido a bordo. “Garanto que não vou comer massa nos próximos anos”, referiu. Além da mãe, o pai também nunca concordou com esta decisão do filho. Carlos Oliveira disse ao nosso jornal que “estava sempre com o coração aos saltos quando chegavam notícias a Portugal”. A mesma opinião tem o irmão. Rui Oliveira, agente da PSP, revelou que nunca partiria para um país em guerra. E foi esse o conselho que sempre deu ao Élio. De todas as pessoas que lhe são mais chegadas, só a namorada, Carina Sousa, o apoia na vontade de participar numa nova missão. No entanto, reconhece que as saudades são sempre muitas. “Os três meses pareceram anos”, disse.Mário GonçalvesUma equipa muito unidaNa festa esteve quase toda a sua equipa. Consideram-se muito unidos, por isso não poderiam faltar a um momento tão especial. O soldado Carlos Ginja é de Odivelas. Conta que foi confrontado com miséria e dor como nunca esperaria ver. “O telefone e a Internet eram os meios que encontrei para estar mais perto da família”. Cláudio Necas veio de Lousada para estar na festa. Estava no Iraque quando lhe nasceu o filho Alexandre. A situação foi tão embaraçosa que o Cláudio ficou parado quando soube da notícia, enquanto o contingente português ficou completamente eufórico. O chefe da equipa, o cabo José Carlos Duarte, também fez questão de estar presente. Contam os militares que o cabo era o “padrinho” do Élio. José Duarte, que também já esteve em Timor, considera Élio Oliveira um grande operacional e uma pessoa divertida
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