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Sofrimento horrível

Edição de 02.03.2005 | Opinião
Em caso de eventual litígio, é fundamental ter o cuidado de preservar as provas.Por exemplo, devem tirar-se fotografias e tomar nota da identificação das testemunhas. Numa agressão, é fundamental ir ao hospital ou a um centro de saúde. Por muito ligeiros que sejam os ferimentos, ou mesmo que estes não existam. O objectivo não é receber tratamento, mas sim ser observado por um médico.Se o acontecimento tiver ocorrido entre duas pessoas apenas, o ideal é provocar uma situação posterior, que seja presenciada por outros.Admitamos que uma empregada de balcão é despedida sumariamente da loja onde trabalha. O patrão limita-se a dizer-lhe que ela deixará de trabalhar ali. Ninguém assiste a nada.Se a trabalhadora levar o caso para tribunal, é bem possível que o lojista venha a alegar que a empregada é que nunca mais compareceu no local de trabalho. Ele não despediu ninguém. Ela é que quis deixar de trabalhar.Ora acontecendo uma situação dessas, o que deve fazer a trabalhadora?No dia seguinte a ter sido despedida, apresenta-se na loja, à hora de abertura. Mas desta vez vai acompanhada de duas amigas, que irão servir de testemunhas.A senhora disponibiliza-se, então, para iniciar o trabalho.O patrão, dirá, certamente, algo como o seguinte:- Você já não trabalha mais aqui. Eu ontem despedi-a. Vá-se embora.Aqui está a forma de garantir a prova. Sem qualquer subterfúgio ou manobra desonesta.Há uns anos atrás, no início da década de 90, ocorreu um caso dramático, em Santarém.Infelizmente, a culpa morreu solteira.O processo arrastou-se durante anos nos tribunais e não se provou quem era o responsável.Um carpinteiro foi a um café, onde comprou quatro garrafas de cerveja, da marca portuguesa mais conhecida, produzida naquela cidade.Levou-as para uma casa, onde ele e outros três colegas estavam a realizar trabalhos de construção civil.Ao chegar ao local, as garrafas encontravam-se invioladas, com a cápsula colocada.A partir deste ponto, é que as dúvidas se instalaram.Os quatro operários abriram garrafas de cerveja. Propunham-se beber directamente pelo gargalo, sem utilizar um copo.O primeiro a beber uns goles foi precisamente esse carpinteiro, que tinha ido ao café.De imediato, começou a gritar de dor e a contorcer-se.Foi conduzido ao hospital, onde esteve internado durante um longo período. Sofreu muitíssimo.Realizaram-lhe endoscopias. Chegaram à conclusão que ele fora envenenado e queimado interiormente com um produto derivado do petróleo.Logo que teve alta, a vítima resolveu processar a cervejeira. Felizmente, esta contava com um seguro apropriado.No entanto, a companhia de seguros não assumiu a responsabilidade.Provou-se que o carpinteiro tinha sofrido aquelas lesões devido a ter bebido cerveja que não estava em condições. Até havia três testemunhas.No entanto, não foi possível demonstrar que, efectivamente, a garrafa cujo gargalo o indivíduo colocara na boca fosse uma das quatro que ele comprara no tal café.Era possível que fosse uma outra cerveja que eventualmente estivesse lá naquela casa.Compreende-se que a principal preocupação dos três colegas da vítima fosse socorrê-la e providenciar pela assistência médica.Contudo, se tivesse havido algum cuidado em garantir as provas, tinha-se a certeza de que garrafa tinha vindo a cerveja ingerida pelo indivíduo.* Juiz(hjfraguas@hotmail.com)

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