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Crianças abusadas sexualmente em mosteiro ortodoxo

Crianças abusadas sexualmente em mosteiro ortodoxo

Tribunal de Vila Franca de Xira está a julgar frei de 35 anos

Um monge da Igreja Ortodoxa confessou ter abusado sexualmente de uma menina de cinco anos no mosteiro de Cachoeiras (Vila Franca). O homem de 35 anos desmentiu a acusação de abusos e violação de um rapaz de 11 anos e denunciou outras práticas sexuais num mosteiro pouco católico.

Edição de 02.03.2005 | Sociedade
“Animalesco” e “horroroso” foram dois adjectivos utilizados pela juíza presidente do colectivo que está a julgar um monge da igreja católica ortodoxa acusado de abusar sexualmente de duas crianças de 5 e 11 anos numa quinta de Cachoeiras, Vila Franca de Xira onde a congregação está instalada desde 2002. Na primeira sessão do julgamento, realizada na segunda-feira, no Tribunal de Vila Franca de Xira, Francisco Valoroso Pereira (Frei Serafim, segundo a congregação religiosa), 35 anos, confessou ter tido algumas práticas sexuais com uma menina de cinco anos mas negou qualquer prática com um rapaz de 11 anos.O indivíduo defendeu-se atacando outros elementos da congregação e denunciou ao tribunal que a menina era abusada por outros homens, incluindo o seu líder-“o Arcebispo João”, um homem com o nome de Mário Lopes Ribeiro que está arrolado como testemunha. O arguido disse mesmo que chegou a presenciar os abusos que o arcebispo infringia à criança e denunciou também que o líder da comunidade ortodoxa mantinha relacionamentos sexuais com várias monjas menores e com a mãe da criança. O arguido chegou mesmo a insinuar que a criança seria filha do arcebispo.“No mosteiro fazia-se tudo menos rezar. Era uma autêntica perversão”, comentou a juíza presidente. A magistrada sugeriu ao Ministério Público que aproveite a denúncia para investigar. A mãe da criança, uma monja brasileira de 27 anos, disse desconhecer que a filha tivesse sido abusada por outra pessoa e desmentiu a existência de outras práticas sexuais na quinta. A monja Rafaela (Andreia Faria) explicou que veio para Portugal há sete anos quando estava grávida da menina e que a filha já nasceu na comunidade ortodoxa que esteve instalada em Sintra e Mafra antes de ir para Vila Franca de Xira a 22 de Dezembro de 2002. A saída de Mafra aconteceu depois da Segurança Social ter retirado várias crianças por falta de condições do espaço. Os factos que levaram o homem à prisão há quase um ano terão ocorrido na Quinta da Granja, freguesia de Cachoeiras, no período entre Janeiro e Agosto de 2003.Segundo a acusação, Francisco “Frei Serafim” terá aproveitado a relação de confiança que mantinha com a mãe da criança e em vários passeios pela quinta (propriedade com vários hectares e dois mosteiros) terá abusado da menina. O arguido terá lambido a criança em várias partes do corpo e na vagina e terá usado as mãos da menina para acariciar o seu órgão sexual até à ejaculação. A acusação refere também que o homem instou a menina a praticar sexo oral. O arguido confessou que, por várias vezes, a pedido da menina encostou o seu pénis à vagina da criança, mas nunca penetrou. Os exames médicos confirmaram que a menina mantinha o estado de virgindade anatómica.O texto da acusação também não fala em violação da menina mas o Ministério Público acusa o arguido de ter violado o rapaz de 11 anos que também vivia na quinta. O documento refere que um dia, o arguido foi visto por um rapaz de 11 anos quando estava despido e em cima da menina. Segundo a acusação, o menino foi ameaçado com uma navalha para não contar nada.Mais tarde o arguido terá juntado as duas crianças no seu quarto e terá abusado da menina e, sob ameaça, terá obrigado o rapaz a imitar os seus gestos eróticos. Na sequência destes contactos, o arguido terá mesmo penetrado o seu pénis no ânus do rapaz depois de amarrar as mãos da criança a uma cama de ferro. Estes factos não foram confessados pelo arguido. “Frei Serafim” é ainda acusado de ter facultado às crianças revistas pornográficas com sexo explícito mas o arguido referiu que as revistas eram introduzidas na quinta pelas monjas.O rapaz e a criança, alegadamente, abusados foram ouvidos sem a presença dos jornalistas atendendo à natureza dos crimes. Os seus depoimentos podem estar condicionados porque como reconheceram os inspectores da PJ, “as crianças têm receio de contar certas coisas e a comunidade é muito fechada”. Defendeu-se acusando superioresFrancisco Pereira mostrou arrependimento, mas tentou atenuar a sua culpa dizendo que o fez depois de várias recusas e a pedido da menina que queria namorar com ele. O arguido referiu que a criança disse que era hábito fazer aquilo com outros homens da quinta. Francisco surpreendeu o colectivo quando afirmou que o fez para proteger a menina e a Igreja. “Como é que se protege uma menina de cinco anos de abusos sexuais, abusando dela?”, questionou a juíza presidente, Hermínia Oliveira com a voz já alterada pela emoção. Segundo a acusação, as práticas sexuais terão acontecido várias vezes num olival, num palheiro e no quarto do acusado no interior do mosteiro dos monges. O arguido confessou seis a sete vezes, mas a menina falou em “muitas vezes” quando contou à mãe e à polícia. A denúncia foi feita pela mãe da criança depois de uma consulta médica onde se confirmou que havia sinais de que a criança pudesse ter sido abusada. O arguido incorre na prática de um crime de abuso sexual de crianças na forma continuada e de quatro crimes de abuso sexual de crianças. Nelson Silva Lopes
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