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Quando os animais fazem parte da cura

Quando os animais fazem parte da cura

Hospitais sensibilizados para a questão mas sem estruturas para deixar doentes ver os seus bichos de estimação

Uma psicóloga britânica elaborou um estudo onde diz que a visita de animais de estimação a doentes hospitalizados pode ajudar a sua cura. Os responsáveis dos hospitais do Ribatejo acreditam no diagnóstico mas referem ser difícil passar da teoria à prática. Nos lares de idosos a situação é melhor aceite.

Edição de 02.03.2005 | Sociedade
António Galinha é hoje um homem mais feliz, depois de ter conseguido autorização dos responsáveis do lar da Golegã de que é utente para ficar com a Laica, a pequena cadela rafeira que tirou da rua. Apesar de nunca esquecer o casal de cães que há dois anos deixou em Coruche (ver texto ao lado).A directora do lar, Fernanda Oliveira, entendeu desde início a necessidade de António Galinha em querer acabar os seus dias com algo que ao longo de muitos anos lhe preencheu a vida – um animal de estimação. Mas nem sempre há capacidade – mental e operacional – para atender a situações que, parecendo meros caprichos, são muitas vezes fundamentais para o bem estar do ser humano.Um estudo de uma psicóloga britânica, realizado o ano passado, refere que os hospitais deveriam começar a autorizar que os seus doentes internados recebessem a visita dos seus animais de estimação.June McNicholas acredita que, além de servir de companhia, o contacto do animal com o dono pode acelerar a sua recuperação e reduzir o stress. Mas são muito poucos, para não dizer nenhuns, os hospitais ou clínicas que já permitem que os animais de estimação visitem os seus donos. “As unidades de saúde que fazem isso continuam a ser a excepção e não a regra”, diz a psicóloga.A proibição de visita de animais às unidades de saúde prende-se apenas com questões de ordem operacional. Os administradores e os responsáveis clínicos dos hospitais do Ribatejo até concordam com o princípio de June McNicholas. O problema está em passar da teoria à prática.“Acho que faz todo o sentido”, diz o administrador do Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) que engloba as unidades de Abrantes, Tomar e Torres Novas. Joaquim Esperancinha admite que, em alguns casos, dependendo da patologia de cada doente, seria benéfico para quem está internado ter o seu animal de estimação por perto.A facilidade com que o administrador do CHMT admite esta situação e compreende a questão deve-se também ao facto de, ele próprio, ter uma relação muito forte com a sua cadela rottweiller. “Sei que me iria custar muito não a ver se tivesse de ficar internado num hospital”, refere Joaquim Esperancinha. Apesar disso, o responsável hospitalar não imagina que, nos próximos tempos, algum hospital português venha a adoptar esse critério. “Passar da teoria à prática é o mais difícil, particularmente pela estrutura, física e operacional, dos nossos hospitais”.Porque os internamentos são feitos em enfermarias com várias camas e, como diz, o doente do lado poderia não achar muita graça ao facto de ter de conviver, durante o período da visita, com um animal dentro do espaço.Uma situação partilhada por um dos administradores do Hospital de Santarém. Ramiro Marques diz que a ideia de levar animais a visitar os doentes internados é uma situação que nunca foi equacionada na unidade que gere. Mas é uma questão que não o repugna. Até porque, como afirma, o estudo da psicóloga britânica deve ter sido fundamentado em bases científicas.A verdade é que June McNicholas refere no seu estudo várias pesquisas que demonstram os benefícios que os animais de estimação podem ter, neste contexto. Como por exemplo o facto de nove em cada dez doentes com cancro da mama terem afirmado, num estudo recente, que os seus animais de estimação foram um apoio fundamental, no decurso da doença.Ou como o facto de homens que tinham cães ou gatos junto a eles apresentarem níveis de pressão arterial mais baixos. Maria João Carvalho, cardiologista do Hospital de Torres Novas acredita na veracidade das pesquisas efectuadas por June McNicholas, que ditam melhorias substanciais em algumas patologias. “Os animais de estimação ajudam a minorar o sofrimento dos doentes, particularmente daqueles que têm doenças terminais, com longos internamentos”, refere a médica, adiantando que, em sua opinião, o contacto dos animais com doentes cujo internamento é de curta duração não se justifica.“Até porque não há estruturas físicas para isso. Nem muitas vezes para os humanos, quanto mais para os animais”.Margarida Cabeleira
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