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Sem chaves do bar não há casa nova

Família carenciada espera que a Câmara da Golegã lhe deixe ocupar a moradia prometida

Uma família de três pessoas vive em condições precárias num anexo do bar do campo de futebol da Golegã. O agregado já tem uma casa nova à espera, mas não larga o local sem ser ressarcido do dinheiro que investiu há anos quando tomou o bar de trespasse.

Edição de 02.03.2005 | Sociedade
Há cerca um ano que Maria da Graça Alcobaça, 58 anos, arrumou os seus haveres e espera que lhe seja permitida a mudança para a prometida casa de habitação social que lhe foi atribuída pela Câmara da Golegã. Mas, até à data, ela e os dois netos continuam a viver em condições bastante precárias no bar do campo do futebol das Ademas, na GolegãA falta de condições do edifício é notória e os poucos recursos financeiros deste agregado familiar foram suficientes para que os responsáveis autárquicos decidissem atribuir-lhe uma casa de habitação social. O atraso na entrega deve-se a um desentendimento entre Maria da Graça Alcobaça e a câmara municipal. O presidente da autarquia, Veiga Maltez (PS), entende que a chave da nova habitação só deve ser entregue à munícipe quando esta deixar o bar do Clube de Futebol Goleganense, a quem sempre pagou uma renda mensal. “A senhora dá-nos as chaves do bar e nós entregamos-lhe, na mesma hora, a chave do apartamento”, garante o autarca. Só que Maria da Graça não aceita a proposta. Diz que sai do bar, mas primeiro quer ser ressarcida do dinheiro que gastou há 16 anos para pagar o trespasse do espaço. “Eles dão-me 1.500 contos e eu vou-me embora”, afirma. A moradora defende que o bar não é apenas a sua habitação, mas também o seu meio de vida nos últimos anos.“Eu gastei aqui muito dinheiro para poder trabalhar e quando havia futebol sénior fazia alguns contos de reis por dia. Agora só os miúdos jogam à bola e o que vendo no bar nem dá para pagar aos fornecedores”, conta.O sustento desta família provém da pensão por deficiência do neto mais novo e do ordenado do mais velho que, presentemente, trabalha nos Bombeiros Voluntários da Golegã. “Se não fosse isso, não sei como viveríamos”, desabafa Maria da Graça.Os netos são filhos da sua filha mais velha, já falecida, e Maria da Graça ficou com eles a seu encargo. O mais novo, de 20 anos, é aluno do Centro de Recuperação Infantil de Torres Novas e o mais velho, de 22 anos, tirou um curso de carpintaria na mesma instituição. O pai do mais velho também já faleceu e o do mais novo, segundo a avó, só viu a criança no dia em que esta nasceu.O bar do campo de futebol serviu-lhes de abrigo a partir da altura em que Maria da Graça teve um acidente de trabalho e deixou de poder continuar a exercer a profissão de cozinheira no Entroncamento. Foi então que tomou de trespasse o bar – “paguei 1.300 contos e depois mais 200 às pessoas que cá estavam” – e com a permissão do clube ocupou as dependências anexas. “Deixei a casa do Entroncamento à minha filha que morreu e vim para aqui, mas isto não tem condições nenhumas”.A cobertura é de telhas lusalite que não conseguem isolar o frio, principalmente num Inverno rigoroso como o deste ano. “Uma noite destas o meu neto mais velho não conseguiu dormir com frio”, conta a avó adiantando que desde há um ano que dorme numa esteira em frente à lareira.“A minha cama tem sido aqui em cima daquela esteira”, afirma apontando para o chão em frente à lareira coberto por um papelão e para a esteira de palha enrolada a um canto. E continua: “Lavei e arrumei tudo para ir para a casa nova e com o pouco dinheiro que tinha ainda consegui comprar umas coisitas. Mas continuo à espera”.Maria da Graça entregou o caso ao advogado da associação comercial ACIS e a autarquia também recorreu a juristas para chegarem a um entendimento e resolver de vez a situação. Margarida Trincão

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