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O primo do poeta

António Lopes David ainda se recorda de António Botto
Edição de 09.03.2005 | O poder local aqui tão perto
“Já não há cá ninguém que possa falar de António Botto, o último sou mesmo eu e pouco posso dizer”. A afirmação é de António Lopes David, segundo primo do poeta que se recorda de a ter visto em pequeno, quando tinha 8 ou 9 anos. António David, que foi o segundo presidente de Junta da Concavada, fez quase toda a sua vida em Lisboa. O pai era fragateiro e levou a família para a capital, ainda ele era bem pequeno. “Eu nasci em Lisboa, na freguesia da Madalena”, diz o ancião que acrescenta que veio com poucos dias para a Concavada, para voltar a Lisboa por mais quarenta e tal anos.“Quando me reformei vim para a Concavada. Sempre gostei muito desta terra, vinha cá vezes sem conta e nunca saía sem me despedir da casa. Tinha que arranjar um bocadinho para a minha mulher não ver e dava um beijo na parede”, conta.António Botto (1897-1959) abandonou a aldeia ainda criança indo residir para Lisboa com os seus pais, mas nunca mais voltou à terra natal da beira-rio. Não teve descendentes e os poucos parentes que possa ter também abandonaram aquelas paragens. “Devo ser único que se lembra de o ter visto”, reforça.Mas António David lembra-se melhor da mãe de António Botto, Maria Pires ou a “tia velha” como lhe chamava. “Era tia da minha mãe e gostava de ir ver a sobrinha. Do meu primo sei o que todos sabemos. Que era homossexual, que nunca o escondeu e por isso foi expulso da função pública, mais tarde foi para o Brasil. Arranjou uma senhora e foi ela, que não sei se ainda é viva, que ficou com os livros dele”, conta.As recordações vivas do poe-ta, que foi amigo de Fernando Pessoa, ficam-se por aqui. Mas António David tem a sua própria história. Foi funcionário público e por problemas de saúde reformou-se aos 52 anos. Não foi preciso mais nada, regressou a Concavada, ele e a mulher. “Ela era de Lisboa, nunca gostou disto. A minha mulher era modista e tinha muitas freguesas da alta, como a embaixatriz do Brasil que a convidou a ir para lá. Eu? Para o Brasil? Nem pensar! Então e a Concavada? Não via outra coisa. Passava as férias todas aqui e, em pequeno, sempre que me ia embora chorava como um bezerro”, diz.Conhece todos os becos da aldeia e ainda é capaz de descobrir o seixo da ladeira da fonte que lhe partiu a cabeça quando escorregou pela cabeça do burro. Enviuvou há uns anos, vive sozinho na casa que foi dos pais e que ficará para o filho. “Tenho gente que cuida de mim e o meu filho vem passar cá uns dias de três em três ou de quatro em quatro meses”, conclui.

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