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O “Homem dos Cornos”

Artesão de Benavente tem encomendas para todo o país

O artesão dos cornos e das cordas de Benavente não pára de trabalhar. Tem encomendas para todo o país. É dos últimos sobreviventes de uma variante do artesanato que tem também os dias contados.

Edição de 16.03.2005 | Cultura e Lazer
Em Benavente, quando perguntam pelo “homem dos cornos” toda a gente sabe que se trata de Joaquim Brardo. É ele próprio que o diz sem qualquer pudor. O artesão é uma das referências do artesanato benaventense por fazer peças em corno de boi ou de vaca há dezenas de anos. Apesar dos seus 74 anos de idade, Joaquim Brardo, também conhecido por Joaquim Padeirinha das Cordas, levanta-se bem cedo “para começar a trabalhar pela fresquinha”. Do seu atelier, que ele prefere designar de “abegoaria”, só sai à hora de almoço. Depois, regressa à tarde para mais umas horas de trabalho. O abegão (que na gíria popular quer dizer carpinteiro de cornos) diz que com o corno (chavelho) consegue-se fazer quase de tudo. No seu atelier montou uma pequena exposição, muitas vezes visitada por pessoas que se interessam por este tipo de artesanato. Nas estantes, encontram-se colheres, facas, garfos, azeiteiros, vinagreiros, canecas e copos. No entanto, consegue fazer objectos mais pequenos, e são normalmente estes que “têm mais saída”. Da meia centena de encomendas que tem durante o ano, a maior parte é esporas, figas, crucifixos e meia-luas. São pequenos adornos que as pessoas penduram em fios de ouro. E não se pense que são só os ribatejanos que fazem este tipo de encomendas. O corno de boi é apreciado por muita gente. Talvez por isso, o artesão tem pedidos do Minho ao Algarve, e até para o estrangeiro já tem feito artesanato. Algumas das suas peças, como é o caso das figas, saem muitas vezes do atelier e vão para uma ourivesaria do Porto para serem revestidos a ouro. Uma pequena figa em chavelho pode custar 20 euros. O preço que pede não compensa o trabalho que tem. Talvez por isso, o artesanato nunca tenha sido o seu meio de subsistência, é apenas uma forma de estar ocupado e de “ganhar uns trocos para os extras”. Só para se ter uma ideia, para fazer um azeiteiro chega a levar três dias. Para este de trabalho, não existem moldes, “tudo é feito à mão”. Por vezes, a matéria-prima não é muito fácil de encontrar. Os cornos são normalmente arranjados nos matadouros. Depois de serem extraídos do animal, são cobertos com sal e ficam a secar cerca de quatro meses. O objectivo é que fiquem totalmente rijos e percam o mau cheiro. Os seus instrumentos de trabalho são normalmente legres (instrumento para raspar), facas e limas. Para os acabamentos, utiliza canetas de tinta chinesa e verniz.Mas Joaquim Brardo não trabalha só em corno. Outra das suas especialidades é a corda. Começou a fazer instrumentos de trabalho em corda quando ainda era muito pequeno. Aos 9 anos foi guardar gado. “Nem tive tempo de fazer o exame da 4ª classe”, adianta. Esta arte aprendeu-a por obrigação, pois “antigamente todos os campinos tinham de saber trabalhar a corda para poderem dominar os animais”. E Joaquim Brardo foi campino durante 35 anos. Do seu pequeno mostruário, fez questão de destacar umas peias, que ainda hoje servem para amarrar as mãos dos cavalos para estes estarem quietos. As amarras, os cabrestos e as prisões são outras cordas feitas no seu atelier. Todas elas têm a sua utilidade. Mas a que mereceu maioria descrição foi a “madrinha”. Trata-se de uma corda que era utilizada para derrubar os cavalos, antes destes serem capados. Hoje, o processo é diferente. Habitualmente, o veterinário administra uma injecção para que o cavalo perca as forças e acabe por se deitar. Como trabalhar a corda não é tarefa fácil, o artesão acaba por ter a ajuda de um amigo. “José Meleiro é muitas vezes o meu braço direito”. Há muitos nós que só conseguem ser feitos com alguma perfeição se forem duas pessoas. “Quatro braços trabalham melhor que dois”, refere.Esta variante do artesanato tem também os dias contados. Hoje, os jovens não querem aprender. É um trabalho que requer muita paciência. Ao longo dos últimos anos, muitos têm sido os jovens que têm contactado o artesão para aprenderem este ofício, mas “ao fim de alguns dias acabam por desistir”. Contrariamente a outros artesãos, Joaquim Brardo diz não ficar triste pelo seu ofício ter os dias contados. “Compreendo que a juventude tem objectivos que não passam pelo artesanato”, conclui. Mário Gonçalves

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