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Uma pérola turística votada ao abandono

Uma pérola turística votada ao abandono

Na típica aldeia de Caneiras há quem ainda continue a viver do que o Tejo dá
Edição de 16.03.2005 | O poder local aqui tão perto
A aldeia de Caneiras, situada na margem direita do rio Tejo, é um dos locais mais conhecidos da freguesia de Marvila. A fama vem essencialmente de tempos passados, sobretudo das desgraças provocadas pelo rio que tudo dá e tudo tira, como contou Alves Redol no seu romance “Avieiros”, publicado a meio do século passado.Com o tipicismo que lhe advém da proximidade ao rio e das suas casas assentes sobre estacas, Caneiras é no entanto uma sombra do que já foi, muito por culpa de quem ao longo dos anos não soube aproveitar as características singulares da aldeia.Apesar de muitas vezes se ter falado do aproveitamento turístico, as ideias caíram no esquecimento e os turistas são cada vez menos, o que não é de estranhar. Enquanto outras autarquias aproveitaram os fundos comunitários para revitalizar as suas zonas de interesse turístico, Santarém vetou as Caneiras ao esquecimento quase completo. A única altura em que é recordada é quando está isolada devido às cheias.Além da construção de um pequeno parque de estacionamento e da recuperação da estrada por alturas da construção da ponte Salgueiro Maia, pouco mais se fez e ninguém foi capaz de mandar construir um jardim, colocar uns bancos para os viajantes descansarem ou aproveitarem as sombras para o repouso. Até o barco que a câmara cedeu há quase uma década para proporcionar passeios fluviais aos visitantes está fora de serviço.Com este cenário de abandono, sem aproveitamento turístico e com a agricultura de rastos, os últimos anos têm levado a população de regresso ao rio. Há uns tempos bastava uma mão para contar os pescadores que deitavam as redes ao rio, hoje, segundo Mário João Petinga, um dos pescadores mais jovens da aldeia, são perto de vinte os que procuram sustento no Tejo. À semelhança dos seus antepassados que vieram da zona de Vieira de Leiria procurar actividade nos meses em que o mar não os deixava sair de terra.José Jacinto Pelarigo, 83 anos, é o pescador mais velho das Caneiras ainda em actividade. Apesar de uma operação ao coração que lhe tirou a força necessária, continua a ir quase todos os dias ao rio. “Gosto da pesca e vou continuar enquanto for vivo”, confessa.Lembra-se do Tejo ser navegável de Vila Franca de Xira a Rio de Moinhos (Abrantes) e de as fragatas fazerem diariamente aquele trajecto com sal, vinho e outros produtos entre Lisboa e Abrantes. Cenário hoje impossível dado o assoreamento do rio.Nascido, criado e baptizado nas Caneiras, José Pelarigo recorda dois momentos marcantes na sua vida e na vida da aldeia. O pior durante a cheia de 1941, em que a água levou as barracas rio a baixo. Com uma memória invejável, recorda que no dia 15 de Fevereiro desse ano veio um ciclone e no dia 20 a cheia.A sua barraca, tal como a grande maioria das restantes, estava feita em cima de estacas de madeira. Com receio que a força da água levasse tudo foram para casa de um tio que já tinha a casa assente em pilares de cimento. Às cinco da manhã a água fazia muito barulho e o pai acordou, levantou-se e foi à porta, no momento preciso em que a habitação começou a ceder. Estavam 16 pessoas em casa e só tiveram tempo de fugir para o meio de uma vinha, onde ficaram em cima de um monte de vides até o sol nascer. No Inverno de 1979 viveram-se outros momentos de aflição, com a maior cheia dos últimos anos e o cenário a repetir-se. Muitas casas foram devoradas pela força da água.Hoje as cheias já não são tão violentas e a maior parte das casas já é de cimento. O peixe é que é igual ao de há cem anos atrás, garante José Pelarigo. “Há menos mas haverá sempre fataça, sável, saboga, enguia, lampreia e barbo”, garante quem sabe.
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