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“Santarém é uma cidade acomodada”

Hermínio Martinho diz que não há estratégia de desenvolvimento nem peso político na capital de distrito

Hermínio Martinho considera que continua a faltar peso político a Santarém, que se vai reflectindo na perda de influência nos contextos nacional e regional. Em vez de apontar baterias para o exterior, critica os escalabitanos por serem acomodados. “Santarém continua a actuar e a viver de uma forma desgarrada. As coisas acontecem porque têm de acontecer” diz o antigo autarca e deputado, em vésperas de mais um feriado municipal.

Edição de 16.03.2005 | Política
Santarém celebra no próximo sábado o seu feriado municipal. Acha que a cidade e o concelho têm muitas razões para festejar, quando se fala da sua perda de influência nos contextos nacional e regional?Há sempre razões para festejar. É um dia que se festeja anualmente e que pode ser um factor para estimular e unir as pessoas em redor daquilo que lhes é comum. E até, porque não, despertar algumas coisas que podem ser importantes para o futuro do próprio concelho.Vive em Santarém, foi ve-reador, deputado, tem uma noção do que o concelho valia e do que vale hoje. Acha que houve realmente essa falta de perda de peso político?De uma forma coerente com aquilo que sempre afirmei, acho que efectivamente Santarém hoje tem menos peso político não só no todo nacional como inclusivamente a nível regional. Acho que concelhos limítrofes como Almeirim, Cartaxo ou Rio Maior, para já não falar em Abrantes e Tomar, têm-se vindo a aproximar de Santarém em termos de capacidade, de desenvolvimento e de peso político, de capacidade de intervenção naquilo que são as decisões que têm a ver com o destino de todos nós.E de quem são as responsabilidades?Se calhar as responsabilidades são de todos nós. Acho que estamos demasiado acomodados. Não vejo muita vontade de intervir, de mudar. As pessoas deixam-se acomodar e isso tem-se reflectido negativamente a todos os níveis.O que pensa da actual gestão camarária?Tenho boa opinião de Rui Barreiro. Sempre tive boas relações com ele. Mas desde que saí da câmara passam-se meses que não vou à cidade e não tenho conhecimento concreto que me permita dar uma opinião sobre o que se passa.Não está a usar um subterfúgio para se refugiar comodamente no silêncio? Para fugir à polémica?É verdade o que aprendi com o meu avô, que dizia: quando tiveres bem para dizer, não deixes de o dizer, quando tiveres mal a dizer o melhor é ficares calado. Mas não é isso que está em causa. Um exemplo: ontem fui a Santarém e vi um grande palanque em frente ao tribunal, para actuarem os Xutos e Pontapés. Uma coisa asseguro, se fosse presidente da câmara, a vida da cidade nunca seria perturbada durante um dia inteiro numa artéria principal por causa de um concerto.Eu recordo-lhe que no anterior mandato, era o senhor vereador da câmara, o mesmo local foi palco de actividades semelhantes durante as Festas da Cidade.É provável que sim, mas não me perguntaram o que é que eu pensei disso na altura. Não se entenda isto como uma crítica, nem estou a dizer que não haja concertos, mas cortar aquela artéria por causa de um concerto só mesmo em último recurso.Como vê o crescimento urbanístico de Santarém?Santarém, tendo praticamente a mesma população, cresceu em termos urbanísticos cinco ou seis vezes nas últimas décadas. E qual é a qualidade de vida das pessoas de Santarém? Para onde é que as pessoas vão? Que espaços têm para conviver? Tem de haver alterações profundas a esse nível. É o futuro de todos nós que o exige.Aí há também alguma responsabilidade da força política de que foi vereador. Os projectos urbanísticos são aprovados na câmara, e na maioria das vezes com o voto favorável do PSD.É verdade que sim. Mas ou a gente diz não a tudo, ou aprova algumas coisas. Eu, por exemplo, tinha grandes dúvidas quanto ao centro comercial que foi recentemente construído em Santarém. Entre ver aquele espaço degradado no centro da cidade, que já estava assim nos meus tempos de liceu, ou fazer-se o que está ali, às vezes tem de se optar pelo mal menor. O ideal seria as pessoas, quando decidem, verem tão longe quanto possível. Tenho muita pena que a praça de touros tenha sido construída onde foi. Se as pessoas tivessem olhado para a planta do planalto, a Avenida Afonso Henriques ia dar directamente à entrada do Complexo Andaluz e tudo aquilo estaria diferente. A praça de touros interrompeu de facto tudo aquilo que poderia ser projectado para a zona.E mexe com o futuro do antigo Campo da Feira. O que espera desse espaço central da cidade?Acho que é aí que deve ser criada a grande praça, o centro de vida e o motor da cidade. E também construir ali os futuros paços do concelho para afectar o actual edifício da câmara para centro de cultura e turismo. Tal como gostava de ver o Campo Sá da Bandeira transformado numa ampla zona verde, uma espécie de Central Park, sem trânsito e com estacionamento subterrâneo. São ideias que gostava que o povo de Santarém me tivesse dado oportunidade de concretizar. Mas não deu e já não vai ter oportunidade de dar.O presidente da Câmara de Santarém queixa-se regulamente da falta de apoio dos últimos governos a projectos previstos para o concelho. Fala mesmo de discriminação face a outros concelhos da nossa região. Acha que esse é um argumento plausível?Pode haver algumas decisões pontuais de ministros que favorecem mais a sua região, mas, pela minha experiência, de uma maneira geral os governos tratam os presidentes de câmara de forma igual. Pode é haver presidentes de câmara que às vezes, pelo tal peso político, pela tal maneira de ser, pela tal diplomacia, conseguem levar mais facilmente a água ao seu moinho. E temos que reconhecer que há alguns presidentes com mais jeito para isso.Como homem ligado à agricultura, como é que viu a deslocalização da Secretaria de Estado da Agricultura para a Golegã, após ter sido dada como certa em Santarém? Não acompanhei esse processo de perto. Mas acabei de lhe falar da capacidade dos presidentes de câmara para intervir e decidir. E acho que aí foi muito mais uma questão de mérito do presidente da Câmara da Golegã, que é um grande senhor, do que demérito de Santarém.O distrito está dividido em duas comunidades urbanas – Médio Tejo e Lezíria do Tejo. Acha que se perdeu uma oportunidade de agregar os municípios da região sob uma única entidade, com a recente reforma administrativa conduzida por Miguel Relvas?Acho que o Miguel Relvas na passagem pelo Governo mostrou qualidades e uma capacidade que o valorizou. Ultrapassou aquilo que a maioria das pessoas esperava. Em termos desta divisão, sinceramente não vislumbro daí vantagens para aquilo que me preocupa e me interessa, que é a criação de condições para o bem-estar das pessoas. E é para isso que os políticos existem. Para mim o que conta são resultados concretos, palpáveis.Há pouco falava de alguma acomodação por parte dos agentes políticos e sociais de Santarém. Essa é uma espécie de mea culpa por se ter afastado da vida pública desde que cessou as funções de vereador em Janeiro de 2002?Eu não estou afastado da vida pública…Talvez, mas as pessoas habituaram-se a vê-lo e a ouvi-lo, e agora vêem-no pouco.Vêem-me pouco porque a minha actividade hoje passa por Lisboa, pelo país todo e até pelo estrangeiro. Mas venho dormir a Santarém todos os dias e estou inequivocamente ligado a Santarém e estarei até ao resto da minha vida. Mas pelo menos desapareceu da cena política.Em termos políticos o que se passa não é uma questão de acomodação. Na vida sempre fiz aquilo que gostava de fazer. Então é daqueles que não pode dizer que sacrificou a família por causa da política?Bem, fiz alguns sacrifícios na minha vida e coisas que não me apetecia fazer. E por acaso foram sempre ligadas à política. Sobretudo na fase final, depois da saída do general Eanes do PRD, eu acho que em coerência devia ter saído também.E não saiu porquê? Só não saí porque achei que isso podia ser um factor de desagregação imediata do próprio partido. E nós tínhamos tido, apesar de tudo, quatro por cento. Eu tinha tido no distrito de Santarém praticamente o triplo da percentagem nacional e só por isso fui o único deputado eleito em 1987, na segunda eleição, fora da linha litoral. Também tinha essa responsabilidade e não devia voltar as costas às pessoas que votaram em mim. Confesso que foram anos de grande sacrifício e por vezes até penosos.Os sacrifícios ficaram por aí?Hoje estou a fazer uma coisa de que gosto muito e não sinto qualquer motivação, atracção ou estímulo para me envolver em qualquer actividade política.Quer dizer que está reformado politicamente?Não posso dizer que esteja reformado, porque fui militar durante seis anos cá e em Angola, estive na actividade política directa, fui deputado seis anos, e não recebo um tostão do Estado. Sou contribuinte líquido com todo o gosto e não me importava de contribuir mais.Quando falava em reforma da política, era da actividade em si e não de eventuais benefícios…Eu percebi. Neste momento, em termos sociais e públicos, sou presidente da assembleia geral dos Bombeiros Voluntários de Santarém e chega. Fui convidado com o objectivo de ajudar na construção do novo quartel, há muitos anos necessário, e que só pelas razões da tal acomodação e da tal actuação desgarrada é que ainda não existe. Vamos tê-lo dentro de pouco tempo e depois do quartel inaugurado até disso eu penso desligar-me.João CalhazA Feira do Ribatejo morreuFoi vereador do PS e do PSD e presidente e deputado do PRD. Tem consciência que o seu trajecto político não será muito bem aceite junto de algumas pessoas? É natural. Não estou nada preocupado com isso. Fui vereador da Câmara de Santarém em 1979/1982 eleito como independente na lista do PS, porque fui convidado por esse partido. O presidente Ladislau Botas convidou-me para ser presidente da Feira do Ribatejo e nessa altura era necessário ser vereador. Fui eu, com o apoio do presidente Botas, que comprei a Quinta das Cegonhas para instalar a Feira e começaram a dar-se os primeiros passos. Aquilo depois foi um bocado desvirtuado, na minha opinião.Porquê?Porque acho que a futura feira, aquilo que é hoje o CNEMA, devia assegurar a manutenção das raízes, da história, a tradição da Feira do Ribatejo e isso não aconteceu. Hoje a Feira do Ribatejo não existe. Morreu. E quando cortamos com as raízes das coisas estamos a dar passos que não devem ser dados.Não acha que deve haver uma evolução, um acompanhar dos tempos?Eu estou a dizer que sim. Fui eu que escolhi o sítio para transferir a Feira, fui eu, com o grande apoio do Ladislau Botas, que acertei o preço com o proprietário da quinta e comecei a fazer os primeiros trabalhos. Agora, acho também que a evolução devia manter sempre a ligação à raiz da Feira do Ribatejo. Tínhamos em Santarém uma feira única no mundo.Sim, mas o espaço e as condições para o público não se comparavam…Nisso estou de acordo e daí procurar-se um novo espaço. A ideia era meter todo o corpo administrativo e toda a recepção a entidades no local onde está hoje aquele esqueleto de um hotel. Cheguei a fazer a apresentação da feira de 1982 nesse sítio. Fala no desvirtuar da Feira, mas continua a haver largadas de touros, campinos, cabrestos… Os traços ribatejanos mantêm-se.A manga era uma coisa única no mundo que não existe ali. O folclore, que era uma raiz essencial da Feira do Ribatejo, foi desligado do evento. O Festival Internacional de Folclore agora é noutra data, perdeu a força e o impulso que tinha. Temos uma feira em que quase só há brasileiradas…O ano passado já foi diferente.Graças a Deus. É sinal de que algumas coisas estão a ser corrigidas. Mas no meio desta confusão toda quem perdeu foi a Feira do Ribatejo, que deu origem às grandes feiras em Santarém, que já não existe, morreu.Hermínio Martinho é militante de base do PSD sem as quotas em dia“Moita Flores é um homem com muito valor”Fala-se na possibilidade de o PSD apoiar a candidatura de Moita Flores à Câmara de Santarém.Já ouvi falar disso. Sou amigo do Moita Flores, acho que é um homem com muito valor.Seria uma boa aposta?É um homem com muita qualidade e provas dadas de grande capacidade de trabalho. Mas não vou dar opinião sobre se é ou não o melhor candidato. Não vou envolver-me nisso. Em termos políticos a minha desmotivação é completa e total e nem a minha vida me permite equacionar qualquer intervenção nesse campo.Quer dizer que o PSD não contará consigo para a campanha eleitoral?A única intervenção que admito é apoiar o professor Cavaco Silva se ele for candidato presidencial. Aliás já lhe transmiti isso. Mas nunca em lugares de destaque.Esse tributo ao ex-primeiro-ministro é uma expiação do “pecado” que cometeu em 1987, quando uma moção de censura por si apresentada no Parlamento fez cair o primeiro Governo de Cavaco Silva?Não. Voltava a fazer a mesma coisa. Foi uma decisão colectiva do meu partido, que eu apoiei. Está a fazer agora 18 anos. Quando o Presidente da República, Mário Soares, decidiu convocar eleições avisei-o na altura que isso ia dar a maioria absoluta ao professor Cavaco Silva. Havia um suporte maioritário no Parlamento, composto pelo PRD e pelo PS, que podia sustentar um Governo liderado por Vítor Constâncio, como foi proposto. O que teria acontecido se essa solução fosse aceite?É uma resposta difícil de dar.Sim. Vítor Constâncio é uma pessoa de perfil semelhante ao de Cavaco Silva, competente, e nessa altura estavam a começar a chegar os fundos europeus…Ironia do destino, hoje o senhor é militante do PSD, embora de base… O mais de base possível.Tem ao menos as quotas em dia?Acho que nem tenho as quotas em dia.Mas segue com alguma atenção a vida política local, regional e nacional?Sigo. Até porque também tem a ver com a minha actividade profissional actual e até com a actividade agrícola da minha família.Os seus colegas de partido procuram-no para obter conselhos?Nunca. A única coisa até hoje que me lembro que o PSD me pediu foi para ser candidato à Câmara de Santarém, em 1997. Era o único lugar que a partir de certa altura me estimulava e que eu tenho pena de não ter desempenhado, pois no meu currículo político já tinha sido deputado, membro do Conselho de Estado, vice-presidente da Assembleia da República. Por isso, sabendo antecipadamente que não ganhava em 1997, pois o PS tinha seis vereadores e o PSD dois e era a altura da onda rosa, aceitei o desafio.Nunca alimentou uma esperança, ainda que vaga, na sua eleição?Sabia que não tinha condições nenhumas para ganhar, mas tinha 50 anos e achava que podia preparar terreno para depois poder ganhar e pôr de pé um projecto que acho que Santarém não tem. Santarém continua a actuar e a viver de uma forma desgarrada. As coisas acontecem porque têm de acontecer.Em 2001 o PSD já não lhe deu nova oportunidade…Por razões que nunca ninguém me explicou, e que também já não precisam de me explicar, se é que têm alguma explicação, eu não fui candidato. E devo dizer com toda a sinceridade que se calhar o PSD perdeu aí uma grande oportunidade de ganhar a câmara, como já tinha perdido em 1993, na última candidatura do so-cialista Ladislau Teles Botas. Mas olhando para trás, e em termos pessoais, se calhar saiu-me a sorte grande por não ter sido candidato à Câmara de Santarém. Se calhar devo estar agradecido a quem mexeu os cordelinhos para eu não ser candidato. E talvez ainda o faça, pois sou uma pessoa que gosta de dizer aquilo que pensa e sente.Isso em política não é muito recomendável.Na política as pessoas não podem dizer o que pensam e o que sentem. Têm de actuar com demagogia, têm que mentir por diversas razões. Até porque o povo gosta de ser iludido. E isso não joga nada com o meu feitio.Chegou a ponderar a hipótese de integrar uma lista independente em 2001, como foi falado?Basicamente, cheguei a ponderar e a ouvir pessoas que me estavam a estimular. Depois achei que nem eu nem o concelho ganhavam nada com isso.E a participar na possível lista independente liderada por José Miguel Noras?Essa hipótese nunca. Cheguei a trocar impressões com ele sobre isso, cheguei a participar num jantar ou dois onde estavam dezenas de pessoas, isso é verdade, mas as coisas depois seguiram outro caminho.Considera-se um mal amado dentro do seu partido?Nem mal amado nem bem amado. Sempre me senti social-democrata. Mesmo antes do 25 de Abril já me identificava com aquilo que eram os ideais e os objectivos da social-democracia. Não gosto de extremismos. È a ideologia mais equilibrada e que melhor compatibiliza os estímulos à iniciativa privada assegurando ao mesmo tempo aquilo que compete ao Estado fazer em termos sociais. O amor à família e a dedicação aos amigos substituíram a agitada vida públicaUm patriarca sereno a quem só o Benfica tira o sossegoÉ junto à lareira da sala de estar da casa da Quinta do Rosário que Hermínio Martinho nos recebe. A madeira crepita no lume, nessa manhã de sábado cinzenta. Estranhamente cinzenta face ao que tem sido o clima nos últimos meses. Uma fotografia salta à vista: a do general Ramalho Eanes, com dedicatória ao amigo e companheiro de aventura nesse fenómeno político da segunda metade da década de 80 que foi o Partido Renovador Democrático (PRD). Um homem, diz, “que ainda faz falta ao país” dado o seu “perfil, experiência, discrição e seriedade” e que “está há 19 anos sem que ninguém lhe peça para fazer o que quer que seja”.Ao lado, uma imagem de um acontecimento importante da nossa história recente. Hermínio Martinho na tribuna da Assembleia da República, em 1987, a apresentar a moção de censura que levou à queda do primeiro Governo de Cavaco Silva. Outra fotografia, aí com Ronald Reagan, e autografada pelo antigo presidente americano, concorre também com as imagens da família que ornamentam estantes e cómodas. Muitas vacas em miniatura espalhadas pela sala remetem para a faceta rural do entrevistado. Foram dadas por amigos e há para todos os gostos.A aproximação de mais um feriado municipal em Santarém é o mote para esta conversa. Hermínio Martinho praticamente desapareceu da vida pública desde que acabou o mandato como vereador da câmara escalabitana, em Janeiro de 2002. E não tem vontade de regressar. Falta-lhe motivação. E o desencanto com o seu partido, o PSD, é notório, por não lhe ter dado uma segunda oportunidade para tentar ganhar a Câmara de Santarém.Actualmente trabalha para a Tecnovia, uma empresa ligada a obras públicas. A lavoura, de que se ocupa sobretudo o seu filho mais velho, continua a ser uma fonte de rendimento da Quinta do Rosário, onde vive mais a esposa e três dos quatro filhos do casal. Os tempos livres, que diz continuarem a ser poucos, são para conviver com a família e amigos, para jardinar, ouvir música, ler e, sobretudo, para ver crescer os dois netos – o António e a Constança. “Quem nasce e morre sem ter filhos morre sem saber o que é o verdadeiro sentimento de amor que se pode ter por seres da nossa espécie. E o mesmo se pode dizer em relação aos netos, que nos enchem os olhos, o coração e a alma”.As palavras emocionadas de um patriarca que se afirma em paz consigo próprio. “Só não me considero cem por cento feliz porque sou do Benfica, que tem sido um factor desestabilizador na minha vida”, diz com humor. O seu clube do coração vai-lhe pregando algumas partidas. E quando as coisas estão mesmo na mó de baixo, nem na televisão acompanha os jogos. O entusiasmo já foi maior e as idas ao Estádio da Luz são raras. Quem sabe se é este ano?De vez em quando ainda pega no tractor para matar saudades da agricultura. Mas o homem que uma vez deixou Lisboa numa noite eleitoral agitada para salvar as suas vacas que já tinham água pela barriga devido à cheia está hoje mais próximo do tecnocrata de fato e gravata do que do homem do campo que foi grande parte da sua vida.Apesar de estar desligado da vida política activa, Hermínio Martinho foi cauteloso nas respostas. Continua a afirmar que pensa pela sua cabeça e que não deixou de ser frontal. Mas saímos com a sensação que não quis abrir o jogo todo em relação a algumas questões desta entrevista em que o guião foi várias vezes ultrapassado e os temas se cruzaram.Um currículo político invejávelHermínio Martinho, engenheiro técnico agrário, nasceu em Tancos, concelho de Vila Nova da Barquinha, em 1946. Está radicado em Santarém já há muitos anos, vivendo na Quinta do Rosário, na periferia da cidade.Desempenhou o mandato de vereador na Câmara de Santarém entre 1979 e 1982, eleito pelo PS, e entre 1997 e 2001 eleito pelo PSD.Foi fundador e presidente do Partido Renovador Democrático (PRD), que obteve um resultado histórico nas primeiras eleições legislativas a que concorreu, em 1985. Assumiu o mandato de deputado, chegou a vice-presidente da Assembleia da República e a membro do Conselho de Estado.Dois anos depois, uma moção de censura proposta pelo PRD na Assembleia da República levou à queda do Governo do PSD liderado por Cavaco Silva, que tinha maioria relativa no Parlamento. As eleições intercalares que se seguiram deram a primeira maioria absoluta a Cavaco Silva.

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