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O serralheiro russo que constrói máquinas

O serralheiro russo que constrói máquinas

Aleksandr Horalevych está há cinco anos em Portugal

Aleksandr Horalevych é russo e chegou a Portugal há cinco anos, directamente para a Paviprel, empresa de materiais de construção civil sediada em Ervideiras, Tomar. O seu dia de trabalho é passado na serralharia da empresa, mas a sua actividade não se esgota na manutenção do equipamento. Aleksandr constrói máquinas, arranja motores de automóveis e até fez a sua própria cama.

Edição de 23.03.2005 | Identidade Profissional
É alto, louro e de olhos azuis o homem que assoma à porta da serralharia da Paviprel, empresa de Tomar que produz materiais de construção civil, e se apresenta num português correcto, apesar de estar em Portugal há apenas cinco anos.Aleksandr Horalevych não tem nenhum curso superior, preferiu tirar um curso médio de soldador, antes de ingressar na tropa, na Ucrânia, onde actualmente os pais residem. Passou por várias empresas, algumas de grandes dimensões, e quando decidiu emigrar para Portugal era motorista de camiões.Trabalho nunca lhe faltou na Ucrânia mas o dinheiro não abundava e o serralheiro decidiu aventurar-se além fronteiras. Pagou 250 dólares por uma viagem de autocarro e quando chegou a Lisboa foi encaminhado para Tomar. Há cinco anos que é responsável pela manutenção da maquinaria das quatro unidades fabris da empresa.É um homem que gosta de aprender coisas novas e de experimentar o seu potencial. É por isso que não se limita a consertar e soldar peças, construiu uma misturadora de inertes – areias e britas – para fazer a massa para a produção de manilhas e blocos. É disso, admite, que gosta.Foi também Aleksandr que fez a estrutura da cama de ferro onde hoje dorme, tendo já uma segunda unidade na “forja”. Para além disso continua a fazer a manutenção das máquinas que diariamente trabalham nas quatro unidades fabris da Paviprel.Na Ucrânia, no final de um dia a conduzir camiões, Aleksandr ainda tinha tempo e disponibilidade mental para reparar motores de automóveis, em casa. Em Portugal nunca o fez, por falta de tempo e condições. “O que mais sabe fazer?”, pergunta-se. E a resposta sai rápida como uma bala – “tudo”. Tudo inclui trabalhos de construção civil, instalações eléctricas, canalizações. Aleksandr é um verdadeiro homem dos sete ofícios, embora para já, só execute um em Portugal.Porque a serralharia da Pavriprel absorve-o na totalidade. Enquanto contava a sua vida profissional o telefone tocou várias vezes, com o serralheiro a garantir que determinada peça ficaria pronta a tempo e horas.A fábrica 1 faz vigas, a unidade 2 produz blocos e a 3 pavimentos. A quarta unidade do grupo é responsável pela execução de manilhas. Qualquer uma delas possui várias máquinas a trabalhar em simultâneo, por isso não é difícil ver o serralheiro passar o dia de uma unidade para outra, a consertar aqui ou a soldar acolá.Além disso, uma vez por outra, também arranja as máquinas da Sovaletas, empresa do grupo Paviprel que, como o nome indica, constrói valetas. É por isso que quando o trabalho aperta, fica a trabalhar para além das 17h00, o seu horário de saída. Mas nunca se atrasa na hora de entrar. Às 08h30 já está pronto para começar novo dia.A hora de almoço é passada “na casa dos ucranianos”, como apelida a habitação de rés-do-chão e primeiro andar construída pela empresa para albergar trabalhadores estrangeiros. Apesar da empresa ter refeitório, prefere comer na companhia dos colegas.“Quando tenho tempo faço eu a comida, russa”, diz com orgulho, adiantando não gostar da comida portuguesa. “Sou complicado com a comida”, confessa, adiantando no entanto que gosta muito de bacalhau à Brás.Aleksandr está legalizado há quatro anos e até já tem um rebento português. Chama-se Francisco Alexandre, festejou recentemente o seu primeiro aniversário e é fruto do seu relacionamento com Cláudia, que conheceu quando chegou à Paviprel.Há cinco anos que não visita os pais e a irmã, instalados na Ucrânia, e não vislumbra no horizonte o reencontro que um dia quer fazer. “Temos de poupar, o dinheiro não dá para tudo”.Crítico quanto baste sobre o sistema governativo nacional, o serralheiro diz que Portugal tem excelentes leis, o problema é que muitas não são aplicadas na prática. Gosta de assistir aos debates televisivos e não dispensa os telejornais. Questionado sobre como aprendeu tão rapidamente o portu-guês, o serralheiro russo responde naturalmente – “falando e escrevendo, falando e escrevendo”.Margarida Cabeleira
O serralheiro russo que constrói máquinas

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