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O tempo da sociedade descartável

Frei Bento Domingues alerta em Torres Novas para os perigos do mundo actual
Edição de 23.03.2005 | Sociedade
Este é um tempo “do usar e deitar fora em que tudo é descartável”. Esta é a opinião de Frei Bento Domingues, frade dominicano que, na sexta-feira, dia 18, esteve em Torres Novas para falar de “Trabalho/Família – Para um mundo mais justo e humano”.“Nunca fui padre operário, nem posso ser nenhum especialista para falar de família, mas vou tentar partilhar convosco a minha ignorância”. Foi assim que frei Bento Domingues iniciou a sua palestra. O frade dominicano, habitual cronista do jornal Público, veio a Torres Novas a convite da Liga Operária Católica, Acção Católica Rural e núcleo de Torres Novas do Fórum Abel Varzim. Apelou à evangelização porque tudo “está a mudar” e a Igreja tem de questionar-se. Entrecortando o discurso com pequenas histórias, o dominicano ia misturando trabalho e família, partindo do pressuposto de que nada é como era. “Dividem-se os filhos entre pai e mãe porque os casamentos já não são para toda a vida. Os filhos são criados nas creches, porque as mães têm de trabalhar e os japoneses estão já a desenvolver um robot para dar a papa e tratar dos bebés”.Defendendo que Cristo veio à terra para dar aos homens a possibilidade de abrirem o seu caminho, Bento Domingues acredita em milagres, mas essas manifestações divinas surgem para lembrar aos humanos que podem viver num mundo melhor, mas que “ninguém pense em milagres” para resolver os seus problemas. O discurso foi dirigido a uma plateia católica e praticante que encheu o auditório da Caixa Agrícola. Frei Bento Domingues remeteu para o debate que se seguiu à palestra, a discussão dos temas apresentados. E alguns dos assistentes não se fizeram rogados. O sentido do discurso do frade dominicano em que deixava transparecer a crítica à sociedade actual foi, por vezes, posto em causa pelos intervenientes. Uma senhora brasileira desmistificou a “crise de valores”, com uma sociedade em mudança. “Quando arrumamos um roupeiro tiramos tudo e pouco a pouco repomos as coisas cada qual em sua prateleira”, disse. E para que não restassem dúvidas justificou muitos dos divórcios pelo conhecimento a que as mulheres já têm acesso: “Hoje já não há só um galo a cantar na capoeira e se a mulher não se sujeita a apanhar e a ter sempre um papel subalterno, ela vai para a frente.”Bento Domingues ouviu e concordou porque não há só uma verdade. A sua posição é questionar, levantar os problemas, seguindo São Tomás de Aquino. “Este encontro foi muito bom, porque soltou-se a palavra”, concluiu.Recentemente numa das suas habituais crónicas, frei Bento Domingues afirmou: “Se existe um grave défice de participação política em Portugal, também a igreja sofre de graves carências na evangelização do país. Tanto a política como a Igreja precisam de uma profunda quaresma de conversão que ressuscite a esperança”.Margarida Trincão

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