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“A Matança dos Judeus”

“A Matança dos Judeus”

Cumpriu-se a tradição de Domingo de Páscoa em Cem Soldos, Tomar

Todos os anos, no domingo de Páscoa, a população de Cem Soldos, Tomar, sai à rua para cumprir um antigo e estranho ritual. Uma procissão, sem a presença do pároco, durante a qual se proclama em alta gritaria a ressurreição de Cristo. No final, no largo da Igreja, são partidas com grande violência, cruzes feitas de canas e enfeitadas de flores. A cerimónia é conhecida por “Aleluias” ou “Matança dos Judeus”.

Edição de 30.03.2005 | Sociedade
A população de Cem Soldos, Freguesia da Madalena, Tomar, acordou cedo no Domingo de Páscoa para celebrar uma tradição centenária – a procissão de Aleluia ou, como alguns preferem apelidar, a Matança dos Judeus.Ainda não era nove da manhã e já dezenas de cruzes feitas de canas e enfeitadas com flores repousavam junto à parede exterior da igreja. A pouco e pouco as gentes da terra iam chegando, as mulheres com ramos de flores, os homens carregando cada qual a sua cruz.Meia dúzia de jovens envergam um manto vermelho, emprestado pela Confraria do Santíssimo Sacramento. São os líderes da procissão. São eles que ficam junto ao altar da igreja e, de papel na mão, lêem e cantam palavras alusivas à Páscoa, numa cerimónia que antecede a procissão. São também os jovens vestidos de vermelho que, de pequeno sino na mão, encabeçam a multidão de fiéis pelas ruas de Cem Soldos. Aos gritos, anuncia-se a boa nova – “Aleluia, Aleluia, já nasceu o Nosso Senhor”.O passo é largo porque a aldeia ainda é grande e nenhuma ruela ou beco pode ficar esquecido. Os gritos ouvem-se a grande distância e, na estrada nacional 349-3 há mesmo quem pare o automóvel para tentar perceber o motivo de tanta gritaria.Os braços não se cansam de levantar e baixar as dezenas de cruzes e ramos multicolores. Na face de cada habitante um misto de alegria e revolta. Alegria pela ressurreição do Senhor, revolta pela sua morte às mãos dos judeus.“No meu tempo partia-se tudo”, diz Felisberto Mourão do alto dos seus 88 anos. As pernas já deram o que tinham a dar e agora o idoso prefere ficar no largo, enquanto a “malta” faz a caminhada matinal.Felisberto partiu muita cruz. Para “matar os judeus, que mataram o Nosso Senhor”, como disse ao nosso jornal. “Agora já não dizem isso, houve quem achasse mal...”, refere, justificando o facto de algumas pessoas da terra, mais novas, preferirem “esconder” a tradição. Uma tradição que já não é o que era. O idoso ainda é do tempo em que a procissão levava “o dobro” de gente. “Havia ainda mais cruzes e ramos de flores e só quem os levava é que tinha direito a caminhar pela terra. Hoje vão todos”.São muitos mas não se acotovelam. A procissão estende-se por uma centena de metros, com algumas pequenas clareiras pelo meio. Há quem não faça todo o percurso, quem vá beber uma bica num dos cafés da aldeia enquanto a coluna humana se desloca. “Eles hão-de passar aqui outra vez”, diz um homem de meia idade. Sem a respectiva cruz – “eu não misturo religião com política”, diz à laia de justificação.Carolina Mourão, uma das jovens que enverga o manto vermelho, prefere a versão menos pagã da procissão. “Isto não tem nada a ver com a matança dos Judeus”, diz categoricamente, adiantando que as cruzes se partem em sinal de alegria. Carolina nem gosta da palavra matança. Porque a população “é que fica mal vista”.São quase onze horas quando a romaria entra de novo na igreja. Entoam-se mais uns cânticos, escolhe-se a melhor cruz e o ramo mais bonito, que serão poupados, e a população está pronta para o ponto mais alto do dia – a destruição das cruzes e dos ramos.Com uma ânsia pouco vulgar, as gentes da terra precipitam-se para o átrio da igreja e em fúria atiram repetidas vezes as cruzes e os ramos que tanto trabalho deram a fazer na noite anterior. Como se tivessem a espancar alguém. Seriam os judeus que crucificaram Jesus Cristo?Margarida Cabeleira
“A Matança dos Judeus”

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